sábado, 6 de novembro de 2010

Sobre as eleições 2010: primeiras observações

Depois de mais um período de inatividade, eis que retorno às minhas escrivinhanças n'O concreto pensado. Não que tenha deixado de escrever por completo. Pelo contrário, meu descomprometimento neste último mês aconteceu devido a necessidade de me concentrar na redação de minha dissertação, a qual tenho interesse de compartilhar com vocês, nem que seja aos poucos, trecho por trecho. Mas para isso, ela deve estar dignamente apresentável, algo que ainda não consegui atingir.
Essa situação me impediu de escrever sobre as eleições deste ano que, como sempre, apresentaram diversas polêmicas. Mas, seguindo o ditado de que antes tarde do que nunca, pretendo falar um pouco sobre. Dedicarei minhas toscas análises aos quatro candidatos à presidência que receberam maior destaque na mídia: Plínio de Arruda Sampaio, Marina Silva, José Serra e Dilma Rousseff. Acredito que as quatro candidaturas expressaram fenômenos sociais interessantes, que necessitam de uma análise crítica, já que representam problemas cruciais que o mundo (sim, o mundo, e não só o Brasil!) vive hoje.
Farei essas análises de maneira separada, com postagens distintas para cada candidato. Pretendo até o fim do mês deixar exposta minha opinião. Agora, aproveito para adiantar algumas coisas que estou organizando para escrever.

A candidatura de Plínio colocou à mídia as discussões sobre o socialismo que anteriormente eram rechaçadas dos meios de comunicação de grande impacto. Não que o posicionamento de esquerda - e aqui me refiro a esquerda que pensa na transformação radical da sociedade, sem reformas - tenha demonstrado força, mas ao menos, acredito eu, a candidatura de Plínio serviu para quebrar com o marasmo e a naturalidade do consenso das ideias liberais. Pena que sua candidatura representou, também, a fragilidade da esquerda em articular-se numa plataforma única, algo que, para mim, é resultado direto de uma concepção de partido baseada numa noção de vanguarda bastante torpe.

Já a candidatura de Marina representou a mais nova faceta do velho (mas nem tanto) fenômeno da terceira via: uma alternativa àqueles que, cansados da polarização entre esquerda e direita, ou que, ao contrário, não observavam mais polarização alguma na política, trataram de se filiar a uma candidatura que representasse o "novo". Uma novidade que aparentemente tinha um discurso progressista, diferente da direita, e não extremista, ao contrário da esquerda, que levantava uma bandeira que certamente não há como não defender, o da defesa do meio-ambiente. O que essas pessoas não sabiam é que essa postura não é novidade alguma no mundo, muito embora o possa ser no Brasil - algo significativo sobre como ideologias não surgem do nada, mas sim de condições históricas específicas. E mais: embora os Partidos Verdes por todo mundo, ou em sua maioria, tenham surgido colocando-se politicamente como centro-esquerda, a falta de radicalidade de seu discurso permitiu, ao longo do tempo, a associação ao partido de pessoas completamente descomprometidas com a transformação social e que veem na sustentabilidade apenas uma fatia de mercado bastante saborosa para investimentos.

A candidatura de Serra foi expressão de como agirão as pessoas vinculadas ao pensamento reacionário daqui para frente, no Brasil e no mundo. Não que tal postura inexistisse antes, mas agora ela passou a ser exigida com maior premência pelos defensores do establishment, num momento claro de crise econômica e de nova ascensão dos movimentos sociais, especialmente na América Latina. Contribui também para esse movimento ideológico os desdobramentos do pensamento irracionalista oriundos do final do século XIX, responsável por uma queda no pensamento critico filosófico e científico, tanto à esquerda quanto à direita. A maior consequência dessa "decadência ideológica", para usar um termo de Lukács, é o surgimento de visões de mundo muito próximas ao fascismo. (E aqui já adianto que quando me refiro a fascismo não estou apenas de uma situação de violência. O termo engloba um conteúdo bem mais preciso, que identifica uma visão de mundo complexa que não se resume a violência, ao contrário do que comumente se lê e se ouve).

O caso da eleição de Dilma apresenta as mesmas questões que estavam presentes no duplo mandato de Lula, e que são de extrema importância para quem se interessa pela transformação social e pela compreensão dos aspectos ideológicos do reformismo: será realmente que as reformas promovidas até agora, pautadas nos programas assistenciais e no fortalecimento do Estado, propiciarão as condições necessárias para uma transformação radical da sociedade? Serão essas reformas capazes de superar os marcos da forma de sociabilidade dominada pela lógica fetichizada do capital entranhada em todos nós? Ora, essa política reformista contém muitos aspectos semelhantes com a política do Estado de bem-estar social na década de 1960, na Europa que, para quem não sabe, redundou numa crise cuja solução encontrada para seu sanamento foi, nada mais nada menos, do que as políticas neoliberais. Não que os defensores do welfare state projetassem esse danoso desdobramento, mas como diria um barbudo famoso, os homens fazem sua história, mas não da maneira como bem entendem: mesmo sem querer, a política reformista da época criou condições econômicas de ocultação das contradições do capital, passando a impressão de que não haveriam mais crises, ou a de que essas seriam pontuais, e não mais estruturais, como havia sido a anterior e como acabou sendo a seguinte. No campo da ideologia, essa política favoreceu ao conservadorismo, já que tirava do horizonte de luta dos trabalhadores qualquer proposta radical, focando a luta apenas à reinvidicações pontuais. É claro que a situação atual é distinta, mas o fato de apresentar elementos semelhantes com fenômenos passados deve servir, ao menos, para nos mantermos alertas sobre a construção do nosso futuro.

Por enquanto é isso! Espero que nas postagens seguintes eu posso tornar mais claro essas observações.