sábado, 11 de setembro de 2010

Sobre outro 11 de setembro

Dia 11 de setembro. O som explosivo causado por aviões provavelmente surge à cabeça de boa parte do mundo quando se lembra desta data. Entretanto, não me refiro ao evento ocorrido à nove anos nos Estados Unidos. Esta lembrança tão recente faz passar despercebido um evento semelhante, acontecido nesta mesma data, também numa terça-feira, mas em outro país e em um ano mais longínquo, mas mesmo assim não longe. Refiro aos ataques bombardeios executados por aviões ao Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, em 1973, que vitimaram o então presidente Salvador Allende e que, seguidos de uma grande onda de repressão, acabaram por coibir também a possibilidade de desenvolvimento de uma nação fora dos moldes capitalistas. E mais, tratou-se de um evento que marcou a aplicação de uma nova forma de produção e, consequentemente, de uma nova forma política de Estado que conhecemos hoje pelo nome de neoliberalismo, responsável pelo fenômeno ambíguo de acirramento e de arrefecimento das contradições sociais através do aumento das desigualdades e da precarização do trabalho bem como da perda de legitimidade das concepções políticas radicalmente transformadoras.
Ontem, dia 10 de setembro de 2010, aconteceu na UEM um debate sobre este 11 de setembro. E a exemplo de seus organizadores e dos participantes da mesa, torna-se necessário fazer o registro aqui desse evento que cada ano que passa, é mais esquecido, muito embora sua lembrança tenha muito mais a nos ensinar do que o evento de 2001.
Neste 11 de setembro de 1973, o governo de Salvador Allende, já completamente isolado na área militar, é derrubado violentamente. Allende e a Unidade Popular, vitoriosos, assumem o governo na sequência das eleições presidenciais de 1970.
Sucessora da Frente de Ação Popular, a UP era uma frente democrática anti-imperialista e antioligárquica composta por várias tendências da esquerda chilena: Partido Socialista, Partido Comunista, Partido Radical, Partido Social Democrata e o Movimento de Ação Popular Unitária. A coalizão defendia o que foi chamado de via chilena para o socialismo. Essa proposta, concebida por Allende, objetivava a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual, baseado no paradigma do socialismo, que seria atingido através da democracia.
Muito embora assumissem o poder, isso não significava que estivessem detendo realmente o poder, pois o aparelho de Estado e a organização burocrático-militar eram mantidos, no fundamental, intactos. O governo da Unidade Popular realizou, desde o início, uma melhoria significativa das condições de vida dos trabalhadores, promovendo a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras.
Feridos de morte, os interesses económicos dos grandes grupos empresariais do país e do imperialismo, desencadeiam e alimentam por sua vez, durante três longos anos, sabotagens e boicotes com o intuito de amedrontar, principalmente, a classe média chilena, e desestabilizar o governo de Salvador Allende.
O golpe de Estado, culminar de todos estes esforços desestabilizadores, é consumado, então, na data fatídica, na operação “Chove Sobre Santiago”, executada pelas forças mais reacionárias e conservadoras do Chile, que teve como ponta de lança as Forças Armadas, sob a direção da Junta Militar encabeçada pelo general Augusto Pinochet, e contou com o inestimável apoio da CIA, do governo de Nixon e Kissinger e dos governos ditatoriais da América Latina conluiados com o imperialismo norte-americano na tristemente célebre "Operação Condor".
Chegava assim ao fim, envolta no maior banho de sangue que a América Latina conheceu nas ultimas décadas, a primeira experiência de transição democrática para o Socialismo do continente americano. Juntamente com Allende, morto durante o ataque a La Moneda, pereceram às mãos do exército chileno, dos esquadrões da morte e dos grupos de extrema-direita do país, milhares de militantes e simpatizantes da Unidade Popular e de cidadãos anônimos, que acreditaram e alimentaram a esperança de um mundo melhor e de uma vida mais justa e morreram a lutar por ela.
Para finalizar, deixo aqui a indicação do endereço eletrônico onde é possível baixar o documentário “A batalha do Chile”, composto por três partes, e que retrata o período de implantação das medidas do governo da Unidade Popular bem como o ataque golpista e seus desdobramentos no cotidiano chileno.
http://docverdade.blogspot.com/2010/02/batalha-do-chile.html
Vale a pena ver e saber mais sobre esse outro 11 de setembro!

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