domingo, 19 de setembro de 2010

O requiém de Ana

- "A Ana se suicidou".
Foi com uma frase assim que recebi a notícia e, trêmulo, a repassei à outras pessoas.
Creio eu que um fato como esse mexe com os sentimentos de todas as pessoas, de uma forma ou de outra. Para mim, especialmente, trouxe memórias nem um pouco agradáveis.
Quando mais jovem, na minha adolescência, minha família passou por uma grave crise financeira que desencadeou uma brusca mudança em nossas vidas. Eu tive que mudar de colégio, afinal, os gastos de uma instituição particular não cabiam mais para nós. Isso significou também o afastamento de minhas amizades já que, tímido como sou até hoje, minhas relações sempre foram bastante restritas. E aquelas estabelecidas no colégio, lugar que passava grande parte do dia, tinham importância fundamental.
Deprimido como fiquei, deixei o tempo passa, cultivando um sentimento que misturava saudade e resignação: havia em mim a vontade de rever os amigos, mas ao mesmo tempo não tinha ânimo para fazê-lo de maneira imediata. Como consequência, sempre fui postergando a possibilidade de rever a galera num momento futuro.
Tudo veio abaixo quando soube da notícia do suícidio daquele que tinha como melhor amigo, desde pequeno. A depressão da época aumentou, e eu me fechei ainda mais. Fechado no quarto, no escuro, refletindo sobre a vida, perdi grande parte da minha adolescência. Seguidamente a morte dele, outros acontecimentos me colocaram ainda mais baixo, e uma perspectiva de futuro se tornava cada vez mais difusa na minha cabeça. O questionamento da vida veio.
Mas ao mesmo tempo, quase que instantaneamente, veio também uma resposta que talvez não pudesse esperar daquele momento. Minhas crenças antigas de uma vida posterior a esta já haviam se esvaziado grandemente. Sabia que o que viria com o findar da vida seria o nada, a falta total de consciência. E sabia também que o que sobra dos mortos são os vivos, e a estes recai toda a dor e todos os possíveis problemas deixados por aqueles que se vão eternamente.
Aquele momento foi um marco em minha vida, pois finalmente minhas reflexões sobre a vida deixaram de ser marcadas por um entendimento de individualidade tacanho, como que se todos nós fossemos isolados dos outros, e que redundavam em fatalismo. Percebi que nos fazemos sempre com relação aos outros, mesmo que os outros nem façam idéia de nossa existência, o que coloca a necessidade de conhecermos melhor uns aos outros, que nisto reside a possibilidade de aumentarmos nossas chances de solucionarmos nossos problemas e desfrutarmos de uma vida melhor, mesmo que novos problemas apareçam. Nestas mesmas relações, por mais triste que seja nosso pensar, ainda existem momentos de felicidade, e a perspectiva de que isso pode se repetir num futuro próximo deve encher nossos projetos. Ora, satisfeitas nossas necessidades, surgem outras novas, e com elas novas respostas podem, e devem, ser dadas. Esse momento de catárse representou o início de uma caminhada, feita de maneira muito tortuosa, àquilo que sou hoje; naquilo que acredito e que tento realizar.
E é com esta lição em mente que tento refletir sobre o caso de Ana, e é com ela que me reconforto.
Mas, mesmo assim, admito que isso dói, e dói profudamente, tanto que não escrevo esse texto sem lágrimas.
O que faz doer tanto é aquele sentimento de que poderia ter sido feito algo para evitar tamanah tragédia. Isso, especialmente para mim, ficou mais reforçado porque, sei lá por quais motivos, estava pensando na Ana mais do que o normal. Fazia mais de um mês que não nos encontrávamos pessoalmente. Não éramos chegados, mas acredito que nos consideravamos amigos, pelo menos eu a considerava assim. Mas ao final do mês de agosto trocamos umas poucas mensagens numa dessas redes sociais; nada demais, perguntamos como estava a vida de cada um, como eu estava no mestrado e ela estava na graduação. Mesmo assim, ficou em mim a vontade de conversar um pouco mais. No dia em que o trágico fato foi realizado, logo pela manhã pensei em mandar uma mensagem a ela, mas o comodismo bateu: "deixa quieto, provavelmente verei o pessoal no fim de semana e provavelmente ela estará com eles...é melhor conversar pessoalmente".
A angústia pelo desejo idealizado e não efetivado é grande. O sentimento de arrependimento, de imaginar que algo tão simples talvez pudesse ter feito a diferença incomoda. Mas, pensando melhor, quem pode dizer que problemas maiores também não poderiam ter surgido de gesto tão simples. O importante nesses momentos é ter ciência de que aquilo que aconteceu não pode ser alterado; que qualquer pensamento que traz a contraditória, mas renitente, sensação de conforto e angústia sobre aquilo que poderia ter sido se agissemos de outra maneira é nociva. O futuro do pretérito é uma forma verbal bastante idealista, e como todo o idealismo, só nos faz afastar da realidade.
Como lembrou Ozaí, em seu blog, um ato de suicídio escancara o quão superficial nossas relações se fazem, e como até mesmo pessoas que julgamos conhecer bem podem nos surpreender, e fazem assim, provavelmente, por motivos que não se restringem meramente a sua personalidade, mas que encontram sua origem e sua alimentação na sociedade que ela faz parte. Cabe a nós, vivos, tratarmos de refletir e encontrar as raízes das relações sociais que fomentam a possibilidade de se pensar a morte como solução plausível dos problemas da vida, encerrando qualquer possibilidade de superação que garanta a continuação da vida e, para além disso, tratarmos de forjar uma prática que supere essa situação. Algo que envolve, sim, um grande movimento de transformação cultural, de transformação da concepção e da prática diante dos problemas do mundo, mas que também envolve mudanças de comportamento bastante banais, mas que como qualquer ação material, são capazes de desencadear uma série de atos de consequências bastante relevantes.
No catolicismo, o ritual de "encomenda" dos mortos é chamado requiém, termo do origem latina que designa repouso. O requiém é uma missa que pretende ter a função de velar e apaziguar a alma dos mortos, guiando seus caminhos rumo aos céus. Enquanto ateu, não acredito que isso ocorra. A morte encerra um ciclo de vida, mas não encerra a vida como um todo. Ela segue naqueles que se mantém ativos e é a estes que qualquer forma de conforto ou de demonstração de afeto deve dirigir-se. Assim, inverto a noção original do termo, e considero que o requiém, mais do que um gesto dos vivos para os mortos, seja um gesto dos vivos para os vivos, através da memória daqueles que morreram.
A necessidade de transformação da sociedade, desde pequenos gestos até as grandes mobilizações, com o intuito de evitarmos que ações tão destrutivas ocorram é a lição que pode ser tirada do caso de Ana. Seu requiém para reconfortar nossa mente e para guiar nossos caminhos em vida.
Vivamos então, sabendo que por mais dura que seja a realidade, a possibilidade de dias melhores só se faz presente enquanto vivos, e juntos!

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