domingo, 26 de setembro de 2010

Piazzolla!

Nos últimos dias retomei a dissertação, e com ele o hábito de escutar música quando escrevo. Esse hábito vem desde os tempos finais da gradução, longínquos quatro anos atrás. Foi a maneira que encontrei de controlar a ansiedade que sempre surge na hora de escrever à frente do computador e que me traz a tentação de levantar da cadeira a toda hora para "pensar melhor"; para fugir da crítica concreta da palavra escrita, mais tenaz do que aquela que vem da palavra pensada, ilusoriamente em harmonia com outras em nossa mente.
Geralmente escuto música instrumental, que é capaz de consumir minha ansiedade sem que a concentração seja perdida. Entre os diversos artistas, há um que se destaca, e que é o objeto dessa postagem: ele é Astor Piazzolla.
Nascido em Mar del Plata, Argentina, em 1921, filho de imigrantes italianos, Piazzolla viveu grande parte de sua infância com sua família em New York, aonde desde muito jovem entrou em contato com o jazz e com a música clássica.
Seu primeiro contato com o bandoneón, instrumento que o marcaria seu futuro na música, aconteceu em 1929 quando seu pai, nostálgico de sua terra natal, lhe comprou um. Em 1933, teve aulas com Bela Wilda, um pianista clássico húngaro.
Porém, para além da influência clássica, Piazzolla teve contatos com o tango. Além da lembranças de sua terra natal, contribui para isso seu encontro com Carlos Gardel em Manhattan, no ano de 1934, ao levar-lhe um presente feito por seu pai. Mais do que o presente, Piazzolla foi de grande ajuda a Gardel, já que este não dominava o idioma inglês.
Retornando à Argentina em 1937, Piazzolla começa a atuar como músico profissional em clubes noturnos, reduto dos músicos de tango mais tradicionalistas. Concomitantemente, mantinha seus estudos em música clássica.
Na década de 1950 compõe obras clássicas que iriam lhe render o prêmio Fabien Sevitzky, pelo qual o governo francês lhe cedeu uma bolsa de estudos para estudar com Nadia Boulanger, compositora e diretora de orquestra, em Paris, no ano de 1953.
Boulanger foi uma pessoa importante em sua carreira, já que até seu encontro com ela, Piazzolla vivia o conflito entre ser um músico de tango ou um compositor de música clássica. Ela o encorajou a seguir com o tango, mas sem abandonar a música clássica. Se até então a escolha era entre uma ou outra, Boulanger tratou de acabar com o dilema: seria tango e música clássica. Soma-se a isso o seu encontro, ainda em Paris, com o octeto do jazzista Gerry Mulligan, que o impresionou pelo nível de improvisação e pela entrega dos músicos à sua atividade.
Em 1955 voltou a Buenos Aires, onde formou uma orquesta de cordas com músicos argentinos e o famoso Octeto Buenos Aires, conjunto considerado pioneiro do tango moderno, o estilo que nascia da fusão encorajada por Boulanger.
Isto não passou em branco no meio musical portenho. Os chamados "tangueros ortodoxos" consideravam Piazzolla "o assassino do tango", e definiram que suas composições não eram tango.
Piazzolla, em contrapartida, dá uma cartada de mestre, respondendo com uma nova definição para sua música: "É música contemporânea de Buenos Aires". De um só golpe, Piazzolla quebra com a hierarquia do campo musical do tango de raíz na Argentina fundando uma "escola" independente, desvencilhando-se de um pensamento tradicionalista que tornava-se um entrave à inovação musical apenas para a manutenção de uma hierarquia consolidada em favor dos "grandes músicos", ao mesmo tempo que não renega a tradição estilística do tango, mantendo o vínculo cultural de suas composições com a arte produzida em seu país.
E para além da quebra com o campo cultural ortodoxo, Piazzolla constituiu, pelo menos para a modesta opinião deste que vos escreve, uma obra fenomenal. Sem contar os fatores estilísticos, a música de Piazzolla possui um caráter afetivo fantástico. Herdando a levada do tango, sua música evoca os sentimentos mais tristes, para que, num jogo fantástico de quebras harmônicas, esse sentimento se reverta em redenção. Isso mesmo, o tango de Piazzolla é redentor!
Eu não tenho muito mais que escrever sobre isso. Talvez o melhor seja ouvi-lo com as próprias orelhas para concordar ou não comigo. Acredito que Violentango, Adiós Nonino, Libertango e Ressurección del Angel sejam as canções que melhor representam o que disse. Seguem abaixo os vídeos com estas canções. Divirtam-se!
Violentango


Libertango (com Yo Yo Ma)

Adiós Nonino

Ressurección del Angel

domingo, 19 de setembro de 2010

O requiém de Ana

- "A Ana se suicidou".
Foi com uma frase assim que recebi a notícia e, trêmulo, a repassei à outras pessoas.
Creio eu que um fato como esse mexe com os sentimentos de todas as pessoas, de uma forma ou de outra. Para mim, especialmente, trouxe memórias nem um pouco agradáveis.
Quando mais jovem, na minha adolescência, minha família passou por uma grave crise financeira que desencadeou uma brusca mudança em nossas vidas. Eu tive que mudar de colégio, afinal, os gastos de uma instituição particular não cabiam mais para nós. Isso significou também o afastamento de minhas amizades já que, tímido como sou até hoje, minhas relações sempre foram bastante restritas. E aquelas estabelecidas no colégio, lugar que passava grande parte do dia, tinham importância fundamental.
Deprimido como fiquei, deixei o tempo passa, cultivando um sentimento que misturava saudade e resignação: havia em mim a vontade de rever os amigos, mas ao mesmo tempo não tinha ânimo para fazê-lo de maneira imediata. Como consequência, sempre fui postergando a possibilidade de rever a galera num momento futuro.
Tudo veio abaixo quando soube da notícia do suícidio daquele que tinha como melhor amigo, desde pequeno. A depressão da época aumentou, e eu me fechei ainda mais. Fechado no quarto, no escuro, refletindo sobre a vida, perdi grande parte da minha adolescência. Seguidamente a morte dele, outros acontecimentos me colocaram ainda mais baixo, e uma perspectiva de futuro se tornava cada vez mais difusa na minha cabeça. O questionamento da vida veio.
Mas ao mesmo tempo, quase que instantaneamente, veio também uma resposta que talvez não pudesse esperar daquele momento. Minhas crenças antigas de uma vida posterior a esta já haviam se esvaziado grandemente. Sabia que o que viria com o findar da vida seria o nada, a falta total de consciência. E sabia também que o que sobra dos mortos são os vivos, e a estes recai toda a dor e todos os possíveis problemas deixados por aqueles que se vão eternamente.
Aquele momento foi um marco em minha vida, pois finalmente minhas reflexões sobre a vida deixaram de ser marcadas por um entendimento de individualidade tacanho, como que se todos nós fossemos isolados dos outros, e que redundavam em fatalismo. Percebi que nos fazemos sempre com relação aos outros, mesmo que os outros nem façam idéia de nossa existência, o que coloca a necessidade de conhecermos melhor uns aos outros, que nisto reside a possibilidade de aumentarmos nossas chances de solucionarmos nossos problemas e desfrutarmos de uma vida melhor, mesmo que novos problemas apareçam. Nestas mesmas relações, por mais triste que seja nosso pensar, ainda existem momentos de felicidade, e a perspectiva de que isso pode se repetir num futuro próximo deve encher nossos projetos. Ora, satisfeitas nossas necessidades, surgem outras novas, e com elas novas respostas podem, e devem, ser dadas. Esse momento de catárse representou o início de uma caminhada, feita de maneira muito tortuosa, àquilo que sou hoje; naquilo que acredito e que tento realizar.
E é com esta lição em mente que tento refletir sobre o caso de Ana, e é com ela que me reconforto.
Mas, mesmo assim, admito que isso dói, e dói profudamente, tanto que não escrevo esse texto sem lágrimas.
O que faz doer tanto é aquele sentimento de que poderia ter sido feito algo para evitar tamanah tragédia. Isso, especialmente para mim, ficou mais reforçado porque, sei lá por quais motivos, estava pensando na Ana mais do que o normal. Fazia mais de um mês que não nos encontrávamos pessoalmente. Não éramos chegados, mas acredito que nos consideravamos amigos, pelo menos eu a considerava assim. Mas ao final do mês de agosto trocamos umas poucas mensagens numa dessas redes sociais; nada demais, perguntamos como estava a vida de cada um, como eu estava no mestrado e ela estava na graduação. Mesmo assim, ficou em mim a vontade de conversar um pouco mais. No dia em que o trágico fato foi realizado, logo pela manhã pensei em mandar uma mensagem a ela, mas o comodismo bateu: "deixa quieto, provavelmente verei o pessoal no fim de semana e provavelmente ela estará com eles...é melhor conversar pessoalmente".
A angústia pelo desejo idealizado e não efetivado é grande. O sentimento de arrependimento, de imaginar que algo tão simples talvez pudesse ter feito a diferença incomoda. Mas, pensando melhor, quem pode dizer que problemas maiores também não poderiam ter surgido de gesto tão simples. O importante nesses momentos é ter ciência de que aquilo que aconteceu não pode ser alterado; que qualquer pensamento que traz a contraditória, mas renitente, sensação de conforto e angústia sobre aquilo que poderia ter sido se agissemos de outra maneira é nociva. O futuro do pretérito é uma forma verbal bastante idealista, e como todo o idealismo, só nos faz afastar da realidade.
Como lembrou Ozaí, em seu blog, um ato de suicídio escancara o quão superficial nossas relações se fazem, e como até mesmo pessoas que julgamos conhecer bem podem nos surpreender, e fazem assim, provavelmente, por motivos que não se restringem meramente a sua personalidade, mas que encontram sua origem e sua alimentação na sociedade que ela faz parte. Cabe a nós, vivos, tratarmos de refletir e encontrar as raízes das relações sociais que fomentam a possibilidade de se pensar a morte como solução plausível dos problemas da vida, encerrando qualquer possibilidade de superação que garanta a continuação da vida e, para além disso, tratarmos de forjar uma prática que supere essa situação. Algo que envolve, sim, um grande movimento de transformação cultural, de transformação da concepção e da prática diante dos problemas do mundo, mas que também envolve mudanças de comportamento bastante banais, mas que como qualquer ação material, são capazes de desencadear uma série de atos de consequências bastante relevantes.
No catolicismo, o ritual de "encomenda" dos mortos é chamado requiém, termo do origem latina que designa repouso. O requiém é uma missa que pretende ter a função de velar e apaziguar a alma dos mortos, guiando seus caminhos rumo aos céus. Enquanto ateu, não acredito que isso ocorra. A morte encerra um ciclo de vida, mas não encerra a vida como um todo. Ela segue naqueles que se mantém ativos e é a estes que qualquer forma de conforto ou de demonstração de afeto deve dirigir-se. Assim, inverto a noção original do termo, e considero que o requiém, mais do que um gesto dos vivos para os mortos, seja um gesto dos vivos para os vivos, através da memória daqueles que morreram.
A necessidade de transformação da sociedade, desde pequenos gestos até as grandes mobilizações, com o intuito de evitarmos que ações tão destrutivas ocorram é a lição que pode ser tirada do caso de Ana. Seu requiém para reconfortar nossa mente e para guiar nossos caminhos em vida.
Vivamos então, sabendo que por mais dura que seja a realidade, a possibilidade de dias melhores só se faz presente enquanto vivos, e juntos!

sábado, 11 de setembro de 2010

Sobre outro 11 de setembro

Dia 11 de setembro. O som explosivo causado por aviões provavelmente surge à cabeça de boa parte do mundo quando se lembra desta data. Entretanto, não me refiro ao evento ocorrido à nove anos nos Estados Unidos. Esta lembrança tão recente faz passar despercebido um evento semelhante, acontecido nesta mesma data, também numa terça-feira, mas em outro país e em um ano mais longínquo, mas mesmo assim não longe. Refiro aos ataques bombardeios executados por aviões ao Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, em 1973, que vitimaram o então presidente Salvador Allende e que, seguidos de uma grande onda de repressão, acabaram por coibir também a possibilidade de desenvolvimento de uma nação fora dos moldes capitalistas. E mais, tratou-se de um evento que marcou a aplicação de uma nova forma de produção e, consequentemente, de uma nova forma política de Estado que conhecemos hoje pelo nome de neoliberalismo, responsável pelo fenômeno ambíguo de acirramento e de arrefecimento das contradições sociais através do aumento das desigualdades e da precarização do trabalho bem como da perda de legitimidade das concepções políticas radicalmente transformadoras.
Ontem, dia 10 de setembro de 2010, aconteceu na UEM um debate sobre este 11 de setembro. E a exemplo de seus organizadores e dos participantes da mesa, torna-se necessário fazer o registro aqui desse evento que cada ano que passa, é mais esquecido, muito embora sua lembrança tenha muito mais a nos ensinar do que o evento de 2001.
Neste 11 de setembro de 1973, o governo de Salvador Allende, já completamente isolado na área militar, é derrubado violentamente. Allende e a Unidade Popular, vitoriosos, assumem o governo na sequência das eleições presidenciais de 1970.
Sucessora da Frente de Ação Popular, a UP era uma frente democrática anti-imperialista e antioligárquica composta por várias tendências da esquerda chilena: Partido Socialista, Partido Comunista, Partido Radical, Partido Social Democrata e o Movimento de Ação Popular Unitária. A coalizão defendia o que foi chamado de via chilena para o socialismo. Essa proposta, concebida por Allende, objetivava a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual, baseado no paradigma do socialismo, que seria atingido através da democracia.
Muito embora assumissem o poder, isso não significava que estivessem detendo realmente o poder, pois o aparelho de Estado e a organização burocrático-militar eram mantidos, no fundamental, intactos. O governo da Unidade Popular realizou, desde o início, uma melhoria significativa das condições de vida dos trabalhadores, promovendo a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras.
Feridos de morte, os interesses económicos dos grandes grupos empresariais do país e do imperialismo, desencadeiam e alimentam por sua vez, durante três longos anos, sabotagens e boicotes com o intuito de amedrontar, principalmente, a classe média chilena, e desestabilizar o governo de Salvador Allende.
O golpe de Estado, culminar de todos estes esforços desestabilizadores, é consumado, então, na data fatídica, na operação “Chove Sobre Santiago”, executada pelas forças mais reacionárias e conservadoras do Chile, que teve como ponta de lança as Forças Armadas, sob a direção da Junta Militar encabeçada pelo general Augusto Pinochet, e contou com o inestimável apoio da CIA, do governo de Nixon e Kissinger e dos governos ditatoriais da América Latina conluiados com o imperialismo norte-americano na tristemente célebre "Operação Condor".
Chegava assim ao fim, envolta no maior banho de sangue que a América Latina conheceu nas ultimas décadas, a primeira experiência de transição democrática para o Socialismo do continente americano. Juntamente com Allende, morto durante o ataque a La Moneda, pereceram às mãos do exército chileno, dos esquadrões da morte e dos grupos de extrema-direita do país, milhares de militantes e simpatizantes da Unidade Popular e de cidadãos anônimos, que acreditaram e alimentaram a esperança de um mundo melhor e de uma vida mais justa e morreram a lutar por ela.
Para finalizar, deixo aqui a indicação do endereço eletrônico onde é possível baixar o documentário “A batalha do Chile”, composto por três partes, e que retrata o período de implantação das medidas do governo da Unidade Popular bem como o ataque golpista e seus desdobramentos no cotidiano chileno.
http://docverdade.blogspot.com/2010/02/batalha-do-chile.html
Vale a pena ver e saber mais sobre esse outro 11 de setembro!