sábado, 12 de junho de 2010

Flashmob

Dias atrás vi uma reportagem sobre um flashmob que aconteceu em Curitiba. Mais uma vez pensei comigo: como essas pessoas me perdem tempo desse jeito? Pô, tanta coisa mais instrutiva pra se fazer num dia de sossego e o pessoal se mobiliza pra matar um desejo que a gente costuma ter quando criança? Vergonhoso...

Mas depois, eu mesmo parei, pensei no que havia pensado, e percebi que minha opinião era também vergonhosa, digna de um PC Siqueira...

Pra acertar as contas com minha consciência e pra lapidar um pouco mais minhas condutas no cotidiano, tratei de fazer um exercício adequado de observação e análise dos flashmobs. Já que tudo nessa vida se faz num jogo de contradições, tratei de pensar o fenômeno das mobilizações-relâmpago de um jeito ambíguo, buscando avaliar seus possíveis prós e contras. Muito embora os resultados deste exercício sejam bastante toscos, ele já é uma prática um pouco mais mediada do que uma simples expressão de opinião, podendo servir de base para uma investigação futura imbuída de uma maior seriedade.

Bom, de positivo nos flashmobs é sua capacidade de mobilização. Através desta maravilha subversiva que é a internet, a capacidade de comunicação – seja em quantidade de pessoas atingidas, seja pela velocidade da informação transmitida – entre as pessoas atingiu um patamar monstruoso. Sem dúvida, o potencial de mobilização trazido pelo incremento no setor tecnológico das comunicações é algo que deve ser tratado com carinho até mesmo pela esquerda, como um possível instrumento de lutas. Já imaginaram, flash-mobs com um potencial revolucionário?

Entretanto, seria ingênuo demais imaginar que só o incremento nos meios de comunicação seja capaz de garantir a adesão de um sem-número de pessoas a um movimento qualquer. O que garante isso é, digamos, o “clima cultural” que se vive no momento, ou, para usar uma expressão mais adequada, a ideologia dominante.

Falar da ideologia dominante do nosso tempo requer tempo e disposição, algo que não cabe ao formato de um blog. No entanto, a necessidade de tratar o tema me faz chamar a atenção para um aspecto específico do caldo cultural contemporâneo, especificamente sobre um de seus aspectos formativos: a ascensão da linguagem e da informação como categorias centrais para se pensar o mundo.

Perry Anderson tratou muito bem desse tema em seu A crise da crise do marxismo, quando esmiúça a chamada “crise da esquerda” e percebe a organização do fenômeno da terceira via que, muito embora se considerasse progressista, sinalizava seguir uma tendência reformista e reacionária. Isto porque a tentativa de desvinculação da esquerda com relação ao stalinismo, isto na década de 60, foi acompanhada de uma postura intelectual de negação da idéia que chamamos de centralidade do trabalho nas análises sociológicas e na prática política. Resumindo a história, a negação do stalinismo por parte da esquerda se dava pela negação da categoria de classe social e tudo mais que lhe acompanhava: a idéia de que o ser humano não se resume por sua atividade produtiva.

É certo que existe razão nesta afirmação. O problema é que, embora o ser humano não se resuma ao trabalho, ele tem nesta categoria um complexo essencial de sua vida. Um conjunto de relações primordiais sobre o qual se ergue um outro conjunto de relações que formam, por sua vez, novos complexos, fazendo da totalidade de nossas vidas um complexo de complexos. Assim, os aspectos culturais, a parcela mais perceptível desse complicado complexo – e sem dúvida a mais rica, pois que é sempre a expressão mais recente de uma série de atos que se interconectam e que por isso, medeiam-se uns aos outros – são a expressão última, mas não absoluta de um processo intermitente. Ignorar as relações mais profundas desse complexo – as mais simples e pobres de mediações, já que elas estão na origem de todas as outras – é adotar uma visão parcial da realidade tal como se manter numa perspectiva “economicista”.

O abandono da idéia de centralidade do trabalho e adoção da linguagem como parâmetro geral de análise do real trouxe consigo uma noção metodológica anistórica, que pouco se importa com a processualidade concreta da vida e passa a dar valor o exercício abstrato, especulativo. Toda a análise realizada por esses pressupostos, por mais convicta e desejosa que esteja em ser crítica, na verdade se mostra unilateral, superficial. Haja em vista os exemplos de Jürgen Habermas e Boaventura de Sousa Santos.

Esta característica aparentemente metodológica, própria a atividade científica, se faz presente no cotidiano de todos. Ora, a disparada da tecnologia é expressão deste movimento de exaltação da linguagem, que serviu para desenvolver os estudos sobre teoria da comunicação bem como para a manutenção das condições de reprodução destrutiva do capital, que exigem cada vez mais uma indústria tecnologicamente avançada, agregadora de trabalho morto.

Os flashmobs também podem ser colocados como expressões desse movimento, já que o conteúdo de suas ações é geralmente caracterizado pela exaltação do incomum, como uma atividade de estranhamento sem nehuma perspectiva de catarse (o estranho encarado como pitoresco), e por uma nostalgia fetichizada (a satisfação de desejos irrealizados no passado) marcada especialmente por certa infantilidade.

Qualquer perspectiva de adoção dos flashmobs para uma forma de mobilização da esquerda, tal como tinha imaginado num primeiro momento, está descartada. Para que ela pudesse ter alguma eficácia neste sentido, seria preciso a existência de um movimento cultural que valorizasse uma reflexão realmente crítica da realidade. Mais ainda, esse movimento precisaria ser constituído com a clara consciência de se opor a ideologia dominante, algo como um pensamento contra-hegemônico.

Para mim, fica cada vez mais forte a concepção gramsciana de partido como elemento estratégico de organização da esquerda. Esta concepção não se refere ao partido enquanto instituição burguesa, atrelada aos procedimentos eleitorais, mas enfoca mais a relação entre intelectuais e massas populares subalternas. Relação esta que deve servir para a formação de uma nova cultura, que se coloque de maneira antagônica a cultura hegemônica própria à reprodução do capital.