sábado, 6 de novembro de 2010

Sobre as eleições 2010: primeiras observações

Depois de mais um período de inatividade, eis que retorno às minhas escrivinhanças n'O concreto pensado. Não que tenha deixado de escrever por completo. Pelo contrário, meu descomprometimento neste último mês aconteceu devido a necessidade de me concentrar na redação de minha dissertação, a qual tenho interesse de compartilhar com vocês, nem que seja aos poucos, trecho por trecho. Mas para isso, ela deve estar dignamente apresentável, algo que ainda não consegui atingir.
Essa situação me impediu de escrever sobre as eleições deste ano que, como sempre, apresentaram diversas polêmicas. Mas, seguindo o ditado de que antes tarde do que nunca, pretendo falar um pouco sobre. Dedicarei minhas toscas análises aos quatro candidatos à presidência que receberam maior destaque na mídia: Plínio de Arruda Sampaio, Marina Silva, José Serra e Dilma Rousseff. Acredito que as quatro candidaturas expressaram fenômenos sociais interessantes, que necessitam de uma análise crítica, já que representam problemas cruciais que o mundo (sim, o mundo, e não só o Brasil!) vive hoje.
Farei essas análises de maneira separada, com postagens distintas para cada candidato. Pretendo até o fim do mês deixar exposta minha opinião. Agora, aproveito para adiantar algumas coisas que estou organizando para escrever.

A candidatura de Plínio colocou à mídia as discussões sobre o socialismo que anteriormente eram rechaçadas dos meios de comunicação de grande impacto. Não que o posicionamento de esquerda - e aqui me refiro a esquerda que pensa na transformação radical da sociedade, sem reformas - tenha demonstrado força, mas ao menos, acredito eu, a candidatura de Plínio serviu para quebrar com o marasmo e a naturalidade do consenso das ideias liberais. Pena que sua candidatura representou, também, a fragilidade da esquerda em articular-se numa plataforma única, algo que, para mim, é resultado direto de uma concepção de partido baseada numa noção de vanguarda bastante torpe.

Já a candidatura de Marina representou a mais nova faceta do velho (mas nem tanto) fenômeno da terceira via: uma alternativa àqueles que, cansados da polarização entre esquerda e direita, ou que, ao contrário, não observavam mais polarização alguma na política, trataram de se filiar a uma candidatura que representasse o "novo". Uma novidade que aparentemente tinha um discurso progressista, diferente da direita, e não extremista, ao contrário da esquerda, que levantava uma bandeira que certamente não há como não defender, o da defesa do meio-ambiente. O que essas pessoas não sabiam é que essa postura não é novidade alguma no mundo, muito embora o possa ser no Brasil - algo significativo sobre como ideologias não surgem do nada, mas sim de condições históricas específicas. E mais: embora os Partidos Verdes por todo mundo, ou em sua maioria, tenham surgido colocando-se politicamente como centro-esquerda, a falta de radicalidade de seu discurso permitiu, ao longo do tempo, a associação ao partido de pessoas completamente descomprometidas com a transformação social e que veem na sustentabilidade apenas uma fatia de mercado bastante saborosa para investimentos.

A candidatura de Serra foi expressão de como agirão as pessoas vinculadas ao pensamento reacionário daqui para frente, no Brasil e no mundo. Não que tal postura inexistisse antes, mas agora ela passou a ser exigida com maior premência pelos defensores do establishment, num momento claro de crise econômica e de nova ascensão dos movimentos sociais, especialmente na América Latina. Contribui também para esse movimento ideológico os desdobramentos do pensamento irracionalista oriundos do final do século XIX, responsável por uma queda no pensamento critico filosófico e científico, tanto à esquerda quanto à direita. A maior consequência dessa "decadência ideológica", para usar um termo de Lukács, é o surgimento de visões de mundo muito próximas ao fascismo. (E aqui já adianto que quando me refiro a fascismo não estou apenas de uma situação de violência. O termo engloba um conteúdo bem mais preciso, que identifica uma visão de mundo complexa que não se resume a violência, ao contrário do que comumente se lê e se ouve).

O caso da eleição de Dilma apresenta as mesmas questões que estavam presentes no duplo mandato de Lula, e que são de extrema importância para quem se interessa pela transformação social e pela compreensão dos aspectos ideológicos do reformismo: será realmente que as reformas promovidas até agora, pautadas nos programas assistenciais e no fortalecimento do Estado, propiciarão as condições necessárias para uma transformação radical da sociedade? Serão essas reformas capazes de superar os marcos da forma de sociabilidade dominada pela lógica fetichizada do capital entranhada em todos nós? Ora, essa política reformista contém muitos aspectos semelhantes com a política do Estado de bem-estar social na década de 1960, na Europa que, para quem não sabe, redundou numa crise cuja solução encontrada para seu sanamento foi, nada mais nada menos, do que as políticas neoliberais. Não que os defensores do welfare state projetassem esse danoso desdobramento, mas como diria um barbudo famoso, os homens fazem sua história, mas não da maneira como bem entendem: mesmo sem querer, a política reformista da época criou condições econômicas de ocultação das contradições do capital, passando a impressão de que não haveriam mais crises, ou a de que essas seriam pontuais, e não mais estruturais, como havia sido a anterior e como acabou sendo a seguinte. No campo da ideologia, essa política favoreceu ao conservadorismo, já que tirava do horizonte de luta dos trabalhadores qualquer proposta radical, focando a luta apenas à reinvidicações pontuais. É claro que a situação atual é distinta, mas o fato de apresentar elementos semelhantes com fenômenos passados deve servir, ao menos, para nos mantermos alertas sobre a construção do nosso futuro.

Por enquanto é isso! Espero que nas postagens seguintes eu posso tornar mais claro essas observações.

domingo, 26 de setembro de 2010

Piazzolla!

Nos últimos dias retomei a dissertação, e com ele o hábito de escutar música quando escrevo. Esse hábito vem desde os tempos finais da gradução, longínquos quatro anos atrás. Foi a maneira que encontrei de controlar a ansiedade que sempre surge na hora de escrever à frente do computador e que me traz a tentação de levantar da cadeira a toda hora para "pensar melhor"; para fugir da crítica concreta da palavra escrita, mais tenaz do que aquela que vem da palavra pensada, ilusoriamente em harmonia com outras em nossa mente.
Geralmente escuto música instrumental, que é capaz de consumir minha ansiedade sem que a concentração seja perdida. Entre os diversos artistas, há um que se destaca, e que é o objeto dessa postagem: ele é Astor Piazzolla.
Nascido em Mar del Plata, Argentina, em 1921, filho de imigrantes italianos, Piazzolla viveu grande parte de sua infância com sua família em New York, aonde desde muito jovem entrou em contato com o jazz e com a música clássica.
Seu primeiro contato com o bandoneón, instrumento que o marcaria seu futuro na música, aconteceu em 1929 quando seu pai, nostálgico de sua terra natal, lhe comprou um. Em 1933, teve aulas com Bela Wilda, um pianista clássico húngaro.
Porém, para além da influência clássica, Piazzolla teve contatos com o tango. Além da lembranças de sua terra natal, contribui para isso seu encontro com Carlos Gardel em Manhattan, no ano de 1934, ao levar-lhe um presente feito por seu pai. Mais do que o presente, Piazzolla foi de grande ajuda a Gardel, já que este não dominava o idioma inglês.
Retornando à Argentina em 1937, Piazzolla começa a atuar como músico profissional em clubes noturnos, reduto dos músicos de tango mais tradicionalistas. Concomitantemente, mantinha seus estudos em música clássica.
Na década de 1950 compõe obras clássicas que iriam lhe render o prêmio Fabien Sevitzky, pelo qual o governo francês lhe cedeu uma bolsa de estudos para estudar com Nadia Boulanger, compositora e diretora de orquestra, em Paris, no ano de 1953.
Boulanger foi uma pessoa importante em sua carreira, já que até seu encontro com ela, Piazzolla vivia o conflito entre ser um músico de tango ou um compositor de música clássica. Ela o encorajou a seguir com o tango, mas sem abandonar a música clássica. Se até então a escolha era entre uma ou outra, Boulanger tratou de acabar com o dilema: seria tango e música clássica. Soma-se a isso o seu encontro, ainda em Paris, com o octeto do jazzista Gerry Mulligan, que o impresionou pelo nível de improvisação e pela entrega dos músicos à sua atividade.
Em 1955 voltou a Buenos Aires, onde formou uma orquesta de cordas com músicos argentinos e o famoso Octeto Buenos Aires, conjunto considerado pioneiro do tango moderno, o estilo que nascia da fusão encorajada por Boulanger.
Isto não passou em branco no meio musical portenho. Os chamados "tangueros ortodoxos" consideravam Piazzolla "o assassino do tango", e definiram que suas composições não eram tango.
Piazzolla, em contrapartida, dá uma cartada de mestre, respondendo com uma nova definição para sua música: "É música contemporânea de Buenos Aires". De um só golpe, Piazzolla quebra com a hierarquia do campo musical do tango de raíz na Argentina fundando uma "escola" independente, desvencilhando-se de um pensamento tradicionalista que tornava-se um entrave à inovação musical apenas para a manutenção de uma hierarquia consolidada em favor dos "grandes músicos", ao mesmo tempo que não renega a tradição estilística do tango, mantendo o vínculo cultural de suas composições com a arte produzida em seu país.
E para além da quebra com o campo cultural ortodoxo, Piazzolla constituiu, pelo menos para a modesta opinião deste que vos escreve, uma obra fenomenal. Sem contar os fatores estilísticos, a música de Piazzolla possui um caráter afetivo fantástico. Herdando a levada do tango, sua música evoca os sentimentos mais tristes, para que, num jogo fantástico de quebras harmônicas, esse sentimento se reverta em redenção. Isso mesmo, o tango de Piazzolla é redentor!
Eu não tenho muito mais que escrever sobre isso. Talvez o melhor seja ouvi-lo com as próprias orelhas para concordar ou não comigo. Acredito que Violentango, Adiós Nonino, Libertango e Ressurección del Angel sejam as canções que melhor representam o que disse. Seguem abaixo os vídeos com estas canções. Divirtam-se!
Violentango


Libertango (com Yo Yo Ma)

Adiós Nonino

Ressurección del Angel

domingo, 19 de setembro de 2010

O requiém de Ana

- "A Ana se suicidou".
Foi com uma frase assim que recebi a notícia e, trêmulo, a repassei à outras pessoas.
Creio eu que um fato como esse mexe com os sentimentos de todas as pessoas, de uma forma ou de outra. Para mim, especialmente, trouxe memórias nem um pouco agradáveis.
Quando mais jovem, na minha adolescência, minha família passou por uma grave crise financeira que desencadeou uma brusca mudança em nossas vidas. Eu tive que mudar de colégio, afinal, os gastos de uma instituição particular não cabiam mais para nós. Isso significou também o afastamento de minhas amizades já que, tímido como sou até hoje, minhas relações sempre foram bastante restritas. E aquelas estabelecidas no colégio, lugar que passava grande parte do dia, tinham importância fundamental.
Deprimido como fiquei, deixei o tempo passa, cultivando um sentimento que misturava saudade e resignação: havia em mim a vontade de rever os amigos, mas ao mesmo tempo não tinha ânimo para fazê-lo de maneira imediata. Como consequência, sempre fui postergando a possibilidade de rever a galera num momento futuro.
Tudo veio abaixo quando soube da notícia do suícidio daquele que tinha como melhor amigo, desde pequeno. A depressão da época aumentou, e eu me fechei ainda mais. Fechado no quarto, no escuro, refletindo sobre a vida, perdi grande parte da minha adolescência. Seguidamente a morte dele, outros acontecimentos me colocaram ainda mais baixo, e uma perspectiva de futuro se tornava cada vez mais difusa na minha cabeça. O questionamento da vida veio.
Mas ao mesmo tempo, quase que instantaneamente, veio também uma resposta que talvez não pudesse esperar daquele momento. Minhas crenças antigas de uma vida posterior a esta já haviam se esvaziado grandemente. Sabia que o que viria com o findar da vida seria o nada, a falta total de consciência. E sabia também que o que sobra dos mortos são os vivos, e a estes recai toda a dor e todos os possíveis problemas deixados por aqueles que se vão eternamente.
Aquele momento foi um marco em minha vida, pois finalmente minhas reflexões sobre a vida deixaram de ser marcadas por um entendimento de individualidade tacanho, como que se todos nós fossemos isolados dos outros, e que redundavam em fatalismo. Percebi que nos fazemos sempre com relação aos outros, mesmo que os outros nem façam idéia de nossa existência, o que coloca a necessidade de conhecermos melhor uns aos outros, que nisto reside a possibilidade de aumentarmos nossas chances de solucionarmos nossos problemas e desfrutarmos de uma vida melhor, mesmo que novos problemas apareçam. Nestas mesmas relações, por mais triste que seja nosso pensar, ainda existem momentos de felicidade, e a perspectiva de que isso pode se repetir num futuro próximo deve encher nossos projetos. Ora, satisfeitas nossas necessidades, surgem outras novas, e com elas novas respostas podem, e devem, ser dadas. Esse momento de catárse representou o início de uma caminhada, feita de maneira muito tortuosa, àquilo que sou hoje; naquilo que acredito e que tento realizar.
E é com esta lição em mente que tento refletir sobre o caso de Ana, e é com ela que me reconforto.
Mas, mesmo assim, admito que isso dói, e dói profudamente, tanto que não escrevo esse texto sem lágrimas.
O que faz doer tanto é aquele sentimento de que poderia ter sido feito algo para evitar tamanah tragédia. Isso, especialmente para mim, ficou mais reforçado porque, sei lá por quais motivos, estava pensando na Ana mais do que o normal. Fazia mais de um mês que não nos encontrávamos pessoalmente. Não éramos chegados, mas acredito que nos consideravamos amigos, pelo menos eu a considerava assim. Mas ao final do mês de agosto trocamos umas poucas mensagens numa dessas redes sociais; nada demais, perguntamos como estava a vida de cada um, como eu estava no mestrado e ela estava na graduação. Mesmo assim, ficou em mim a vontade de conversar um pouco mais. No dia em que o trágico fato foi realizado, logo pela manhã pensei em mandar uma mensagem a ela, mas o comodismo bateu: "deixa quieto, provavelmente verei o pessoal no fim de semana e provavelmente ela estará com eles...é melhor conversar pessoalmente".
A angústia pelo desejo idealizado e não efetivado é grande. O sentimento de arrependimento, de imaginar que algo tão simples talvez pudesse ter feito a diferença incomoda. Mas, pensando melhor, quem pode dizer que problemas maiores também não poderiam ter surgido de gesto tão simples. O importante nesses momentos é ter ciência de que aquilo que aconteceu não pode ser alterado; que qualquer pensamento que traz a contraditória, mas renitente, sensação de conforto e angústia sobre aquilo que poderia ter sido se agissemos de outra maneira é nociva. O futuro do pretérito é uma forma verbal bastante idealista, e como todo o idealismo, só nos faz afastar da realidade.
Como lembrou Ozaí, em seu blog, um ato de suicídio escancara o quão superficial nossas relações se fazem, e como até mesmo pessoas que julgamos conhecer bem podem nos surpreender, e fazem assim, provavelmente, por motivos que não se restringem meramente a sua personalidade, mas que encontram sua origem e sua alimentação na sociedade que ela faz parte. Cabe a nós, vivos, tratarmos de refletir e encontrar as raízes das relações sociais que fomentam a possibilidade de se pensar a morte como solução plausível dos problemas da vida, encerrando qualquer possibilidade de superação que garanta a continuação da vida e, para além disso, tratarmos de forjar uma prática que supere essa situação. Algo que envolve, sim, um grande movimento de transformação cultural, de transformação da concepção e da prática diante dos problemas do mundo, mas que também envolve mudanças de comportamento bastante banais, mas que como qualquer ação material, são capazes de desencadear uma série de atos de consequências bastante relevantes.
No catolicismo, o ritual de "encomenda" dos mortos é chamado requiém, termo do origem latina que designa repouso. O requiém é uma missa que pretende ter a função de velar e apaziguar a alma dos mortos, guiando seus caminhos rumo aos céus. Enquanto ateu, não acredito que isso ocorra. A morte encerra um ciclo de vida, mas não encerra a vida como um todo. Ela segue naqueles que se mantém ativos e é a estes que qualquer forma de conforto ou de demonstração de afeto deve dirigir-se. Assim, inverto a noção original do termo, e considero que o requiém, mais do que um gesto dos vivos para os mortos, seja um gesto dos vivos para os vivos, através da memória daqueles que morreram.
A necessidade de transformação da sociedade, desde pequenos gestos até as grandes mobilizações, com o intuito de evitarmos que ações tão destrutivas ocorram é a lição que pode ser tirada do caso de Ana. Seu requiém para reconfortar nossa mente e para guiar nossos caminhos em vida.
Vivamos então, sabendo que por mais dura que seja a realidade, a possibilidade de dias melhores só se faz presente enquanto vivos, e juntos!

sábado, 11 de setembro de 2010

Sobre outro 11 de setembro

Dia 11 de setembro. O som explosivo causado por aviões provavelmente surge à cabeça de boa parte do mundo quando se lembra desta data. Entretanto, não me refiro ao evento ocorrido à nove anos nos Estados Unidos. Esta lembrança tão recente faz passar despercebido um evento semelhante, acontecido nesta mesma data, também numa terça-feira, mas em outro país e em um ano mais longínquo, mas mesmo assim não longe. Refiro aos ataques bombardeios executados por aviões ao Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, em 1973, que vitimaram o então presidente Salvador Allende e que, seguidos de uma grande onda de repressão, acabaram por coibir também a possibilidade de desenvolvimento de uma nação fora dos moldes capitalistas. E mais, tratou-se de um evento que marcou a aplicação de uma nova forma de produção e, consequentemente, de uma nova forma política de Estado que conhecemos hoje pelo nome de neoliberalismo, responsável pelo fenômeno ambíguo de acirramento e de arrefecimento das contradições sociais através do aumento das desigualdades e da precarização do trabalho bem como da perda de legitimidade das concepções políticas radicalmente transformadoras.
Ontem, dia 10 de setembro de 2010, aconteceu na UEM um debate sobre este 11 de setembro. E a exemplo de seus organizadores e dos participantes da mesa, torna-se necessário fazer o registro aqui desse evento que cada ano que passa, é mais esquecido, muito embora sua lembrança tenha muito mais a nos ensinar do que o evento de 2001.
Neste 11 de setembro de 1973, o governo de Salvador Allende, já completamente isolado na área militar, é derrubado violentamente. Allende e a Unidade Popular, vitoriosos, assumem o governo na sequência das eleições presidenciais de 1970.
Sucessora da Frente de Ação Popular, a UP era uma frente democrática anti-imperialista e antioligárquica composta por várias tendências da esquerda chilena: Partido Socialista, Partido Comunista, Partido Radical, Partido Social Democrata e o Movimento de Ação Popular Unitária. A coalizão defendia o que foi chamado de via chilena para o socialismo. Essa proposta, concebida por Allende, objetivava a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual, baseado no paradigma do socialismo, que seria atingido através da democracia.
Muito embora assumissem o poder, isso não significava que estivessem detendo realmente o poder, pois o aparelho de Estado e a organização burocrático-militar eram mantidos, no fundamental, intactos. O governo da Unidade Popular realizou, desde o início, uma melhoria significativa das condições de vida dos trabalhadores, promovendo a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras.
Feridos de morte, os interesses económicos dos grandes grupos empresariais do país e do imperialismo, desencadeiam e alimentam por sua vez, durante três longos anos, sabotagens e boicotes com o intuito de amedrontar, principalmente, a classe média chilena, e desestabilizar o governo de Salvador Allende.
O golpe de Estado, culminar de todos estes esforços desestabilizadores, é consumado, então, na data fatídica, na operação “Chove Sobre Santiago”, executada pelas forças mais reacionárias e conservadoras do Chile, que teve como ponta de lança as Forças Armadas, sob a direção da Junta Militar encabeçada pelo general Augusto Pinochet, e contou com o inestimável apoio da CIA, do governo de Nixon e Kissinger e dos governos ditatoriais da América Latina conluiados com o imperialismo norte-americano na tristemente célebre "Operação Condor".
Chegava assim ao fim, envolta no maior banho de sangue que a América Latina conheceu nas ultimas décadas, a primeira experiência de transição democrática para o Socialismo do continente americano. Juntamente com Allende, morto durante o ataque a La Moneda, pereceram às mãos do exército chileno, dos esquadrões da morte e dos grupos de extrema-direita do país, milhares de militantes e simpatizantes da Unidade Popular e de cidadãos anônimos, que acreditaram e alimentaram a esperança de um mundo melhor e de uma vida mais justa e morreram a lutar por ela.
Para finalizar, deixo aqui a indicação do endereço eletrônico onde é possível baixar o documentário “A batalha do Chile”, composto por três partes, e que retrata o período de implantação das medidas do governo da Unidade Popular bem como o ataque golpista e seus desdobramentos no cotidiano chileno.
http://docverdade.blogspot.com/2010/02/batalha-do-chile.html
Vale a pena ver e saber mais sobre esse outro 11 de setembro!

domingo, 22 de agosto de 2010

Sigam-me os bons!!

Pois então, não é que aderi ao Twitter. Se não bastasse a falta de disciplina que tenho para com este blog, arrumei mais sarna para me coçar. Mesmo assim, parece que essa rede social permite algumas ousadias, haja visto o caso do Plínio de Arruda Sampaio.
Quem estiver disposto a me seguir, meu perfil é rbbelli. Ou quem não quiser, mas mesmo assim fica curioso em saber como fico gastando o tempo, inseri aqui do lado um aplicativo que mostra as minhas atualizações.
Vejamos se agora eu largo essa situação vergonhosa e consigo levar com seriedade esses compromissos que me coloco.
Até!!

IV Simpósio Lutas Sociais na América Latina

Está se aproximando mais um simpósio promovido pelo GEPAL - Grupo de Estudos de Política da América Latina. O evento, bienalmente promovido na Universidade de Londrina (UEL), tem como tema central desta edição Imperialismo, nacionalismo e militarismo no século XXI.
Tive oportunidade de comparecer ao penúltimo simpósio e posso afirmar que se trata de um grande evento. Além da qualidade das discussões levantadas pelos palestrantes nas mesas-redondas, os grupos de trabalho reúnem comunicações que abordam pesquisas pertinentes (muito diferente dos trabalhos que tem por objeto temas tautológicos, fechados em si mesmo, comuns em outros eventos científicos das ciências humanas).
O evento acontece nos dias 14, 15, 16 e 17 de setembro. Tentarei dar uma escapulida de uma semana das minhas obrigações do mestrado para conferir o evento. Quem estiver disposto a ir, é só dar um aviso que planejamos algo.
Segue abaixo o endereço com a programação mais recente do evento. Confiram aí: http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/

domingo, 4 de julho de 2010

Divulgando debate

"Ciclo de Debates sobre Educação e Movimentos Sociais"

7 a 10 de julho de 2010

Promoção:

Escola Milton Santos - Movimentos Sociais do Campo

Núcleo de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável – NADS/UEM

Projeto de ensino: "Políticas e Gestão no Brasil: Educação no e do Campo" – Departamento de Teoria e Prática da Educação/UEM


Programação:

Dia 07/07, 19:30 h

Conferência:

"Universidade e Movimentos Sociais: desafios do momento histórico"

Ademar Bogo - Coordenação Nacional do MST. Filósofo, poeta e escritor.

Local: Auditório do bloco I12, UEM

Inscrições no local


Dia 09/07, 19:30 h

Conferência:

"O Brasil no contexto mundial: desafios e perspectivas para o século XXI"

João Pedro Stédile - Coordenação Nacional do MST e da Via Campesina Brasil. Economista.

Local: Auditório do PDE, UEM

Inscrições no local


Dia 10/07, 8:00 h

Conferência:

"Sobre a Educação e a Reforma Agrária"

João Pedro Stédile - Coordenação Nacional do MSTe da Via Campesina Brasil. Economista.

Luiz Carlos de Freitas - UNICAMP - Pós-doutor em Educação

Local: Escola Milton Santos (estrada velha para Paiçandu)

Obs.:A atividade faz parte do ato de inauguração da Escola Milton Santos

Maiores informações pelo e.mail: pachamamacampesina@gmail.com

Copa do Mundo: promessas, jornalismo e animalidade

Ah, a Copa do Mundo...

Época de um despertar dos sentimentos patrióticos por todo o mundo. De diversas maneiras, diferentes pessoas tratam de demonstrar seu carinho pelo país natal, carinho este que havia sido reservado de suas atitudes cotidianas durante quatro longos anos (dois anos, caso lhes apeteçam curtir os Jogos Olímpicos entre a realização de uma Copa e outra).

Uma dessas manifestações de fugaz espírito pátrio, merecedora de destaque por este singelo blog, é, sem dúvida, o de Larissa Riquelme. Esta jovem paraguaia se tornou manchete por todo mundo ao fazer a promoção de uma marca de aparelho celular de modo bastante peculiar. Chamando os holofotes da imprensa mundial para tal ação propagandística, e com o avanço do selecionado paraguaio à fase de quartas-de-final do mundial, ela não se conteve: tratou de acalentar o sonho de uma massa incontável de marmanjos ao prometer sair nua pelas ruas de Asunción caso o Paraguai passasse de fase.

Devo confessar que até eu, pessoa controlada que sou, mandei meu superego pro espaço e deixei o id tomar conta da minha psique. Na sexta-feira passada, dia do jogo do Paraguai contra a Espanha, vesti as cores alvirrubras só pra poder ter a oportunidade de ver aquele monumento de mulher correndo livre pelas ruas à pelo puro, desfilando gostosura pela capital paraguaia.

Peço desculpas as pessoas leituras deste blog, em especial às mulheres, por tal demonstração de machismo. Confesso que as imagens de Larissa mexeram comigo, fazendo aflorar parte da minha animalidade. É que o mestrado anda me deixando carente além da conta...

Mas parece que não foi só minha animalidade que veio à tona com o libidinoso fenômeno paraguaio. O pessoal da imprensa brasileira também sentiu o baque, em especial os profissionais da Sportv, canal pago vinculado à Globo. Entretanto, o caso deles é de um outro tipo de animalidade.

Aproveitando a deixa dada pelo caso de Larissa, a Sportv tratou de fazer um vídeo engraçadinho sobre o Paraguai, ironizando a participação da seleção na Copa bem como do que eles pensam sobre relevância do país para o mundo. O vídeo, para quem se recuperou do surto de bestialidade causado pela beldade paraguaia e tratou logo de botar a cabeça no lugar, pode ser facilmente classificado como asqueroso!

Eu lembro que antigamente, os programas jornalísticos das Organizações Globo, incluindo seu até então “apêndice” esportivo, primavam por exalar um certo ar de sisudez. Por mais que isso não deixasse de refletir os preconceitos próprios de seu editorial, ao menos servia para passar a sensação de seriedade aos seus telespectadores, contribuindo assim para estabelecer a falsa idéia de imparcialidade jornalística e estabelecer sua predominância na chamada “opinião pública” do país. Porém, com o recente advento daquilo que chamamos de “jornalismo moleque” – cujo exemplo bem acabado pode ser visto no programa CQC, e que adentra a Globo através do jornalismo esportivo, especialmente através da figura do apresentador Tiago Leifert – o modelo tradicional começa a ser substituído, muito embora não deixe de ser, ainda, predominante.

O caráter escrachado do “jornalismo moleque” combina muito bem com os tempos vividos atualmente, marcados por modos de vida concebidos por relações e representações cada vez mais imediatistas, em que a vida cotidiana transpassa sem nenhuma perspectiva crítica – algo expresso brevemente por este blog na postagem anterior. Esta forma jornalística ignora uma perspectiva historicista dos fatos e afirma sempre o senso-comum. Eis porque é comum o uso de piadas rápidas (comum no CQC) e o reinvenção constante de preconceitos (comum em Leifert). O que vale é afirmar o que está na boca de seus telespectadores, e não questionar. Se se questiona algum fato da realidade, isso se faz de maneira apriorística, como se a resposta já estivesse dada (pelo público), e não da maneira adequada, destrinchando o fato em questão e relativizando sua opinião com outras possíveis opiniões envolvidas no caso.

Mas é preciso ressaltar que, por mais que essa forma jornalística seja expressão de um imediatismo predominante atualmente nas relações entre as pessoas, e que essa condição lhes atravanca o processo de consciência do mundo, isso não significa que os programas que possuam essa característica abram mão de certas mediações para suas constituição. Estes programas são, enquanto fenômenos sociais, respostas encontradas por pessoas determinadas em determinados contextos históricos para a satisfação de determinadas necessidades. Isso exige uma compreensão razoável da situação que se vive, algo que demanda o entendimento de certas mediações. Especificamente, no caso avaliado agora, a necessidade de fazer vingar programas jornalísticos de grande audiência, potencialmente grandes fontes de renda publicitária, exige dos responsáveis pelo jornalismo – pessoas alinhadas com uma visão de mundo conservadora – mudanças nos padrões de apresentação de suas atrações, mudanças que sejam palatáveis ao nível cultural de sua audiência.

Estimular as vontades imediatas é um trabalho que exige um certo conhecimento sobre como funciona o comportamento humano, de maneira individual ou massiva. O problema é que o próprio reforço do imediatismo tende a levar os jornalistas a não pensarem de maneira reflexiva sobre os procedimentos de exposição da notícia. É deste caso que o vídeo da Sportv parece ser expressão. Na tentativa de fazer algo engraçado, de fazer valer a animalidade (imediaticidade) de seus telespectadores, os responsáveis pelo vídeo deixaram fluir a sua animalidade (imediaticidade): o resultado foi a expressão de um preconceito sobre os paraguaios em geral baseado num sentimento chauvinista bem comum nestes tempos de Copa do Mundo (e que parece tornar-se mais presente no cotidiano graças às constantes crises do capital e à incapacidade de uma resposta adequada ao problema).

Trata-se aqui de um dos aspectos da reprodução das condições culturais, que assume atualmente um caráter completamente destrutivo, já que enfraquece substancialmente os fatores necessários para sua reversão. Uma das facetas do fenômeno que Georg Lukács denominou como “decadência ideológica”.

Combater isso é uma obrigação, mas de que jeito? Como driblar esse emaranhado complexo de relações concretas, marcadas por inúmeras perspectivas ideológicas? A tática é realmente um problema, tanto para revolucionários quanto para técnicos de futebol.

sábado, 12 de junho de 2010

Flashmob

Dias atrás vi uma reportagem sobre um flashmob que aconteceu em Curitiba. Mais uma vez pensei comigo: como essas pessoas me perdem tempo desse jeito? Pô, tanta coisa mais instrutiva pra se fazer num dia de sossego e o pessoal se mobiliza pra matar um desejo que a gente costuma ter quando criança? Vergonhoso...

Mas depois, eu mesmo parei, pensei no que havia pensado, e percebi que minha opinião era também vergonhosa, digna de um PC Siqueira...

Pra acertar as contas com minha consciência e pra lapidar um pouco mais minhas condutas no cotidiano, tratei de fazer um exercício adequado de observação e análise dos flashmobs. Já que tudo nessa vida se faz num jogo de contradições, tratei de pensar o fenômeno das mobilizações-relâmpago de um jeito ambíguo, buscando avaliar seus possíveis prós e contras. Muito embora os resultados deste exercício sejam bastante toscos, ele já é uma prática um pouco mais mediada do que uma simples expressão de opinião, podendo servir de base para uma investigação futura imbuída de uma maior seriedade.

Bom, de positivo nos flashmobs é sua capacidade de mobilização. Através desta maravilha subversiva que é a internet, a capacidade de comunicação – seja em quantidade de pessoas atingidas, seja pela velocidade da informação transmitida – entre as pessoas atingiu um patamar monstruoso. Sem dúvida, o potencial de mobilização trazido pelo incremento no setor tecnológico das comunicações é algo que deve ser tratado com carinho até mesmo pela esquerda, como um possível instrumento de lutas. Já imaginaram, flash-mobs com um potencial revolucionário?

Entretanto, seria ingênuo demais imaginar que só o incremento nos meios de comunicação seja capaz de garantir a adesão de um sem-número de pessoas a um movimento qualquer. O que garante isso é, digamos, o “clima cultural” que se vive no momento, ou, para usar uma expressão mais adequada, a ideologia dominante.

Falar da ideologia dominante do nosso tempo requer tempo e disposição, algo que não cabe ao formato de um blog. No entanto, a necessidade de tratar o tema me faz chamar a atenção para um aspecto específico do caldo cultural contemporâneo, especificamente sobre um de seus aspectos formativos: a ascensão da linguagem e da informação como categorias centrais para se pensar o mundo.

Perry Anderson tratou muito bem desse tema em seu A crise da crise do marxismo, quando esmiúça a chamada “crise da esquerda” e percebe a organização do fenômeno da terceira via que, muito embora se considerasse progressista, sinalizava seguir uma tendência reformista e reacionária. Isto porque a tentativa de desvinculação da esquerda com relação ao stalinismo, isto na década de 60, foi acompanhada de uma postura intelectual de negação da idéia que chamamos de centralidade do trabalho nas análises sociológicas e na prática política. Resumindo a história, a negação do stalinismo por parte da esquerda se dava pela negação da categoria de classe social e tudo mais que lhe acompanhava: a idéia de que o ser humano não se resume por sua atividade produtiva.

É certo que existe razão nesta afirmação. O problema é que, embora o ser humano não se resuma ao trabalho, ele tem nesta categoria um complexo essencial de sua vida. Um conjunto de relações primordiais sobre o qual se ergue um outro conjunto de relações que formam, por sua vez, novos complexos, fazendo da totalidade de nossas vidas um complexo de complexos. Assim, os aspectos culturais, a parcela mais perceptível desse complicado complexo – e sem dúvida a mais rica, pois que é sempre a expressão mais recente de uma série de atos que se interconectam e que por isso, medeiam-se uns aos outros – são a expressão última, mas não absoluta de um processo intermitente. Ignorar as relações mais profundas desse complexo – as mais simples e pobres de mediações, já que elas estão na origem de todas as outras – é adotar uma visão parcial da realidade tal como se manter numa perspectiva “economicista”.

O abandono da idéia de centralidade do trabalho e adoção da linguagem como parâmetro geral de análise do real trouxe consigo uma noção metodológica anistórica, que pouco se importa com a processualidade concreta da vida e passa a dar valor o exercício abstrato, especulativo. Toda a análise realizada por esses pressupostos, por mais convicta e desejosa que esteja em ser crítica, na verdade se mostra unilateral, superficial. Haja em vista os exemplos de Jürgen Habermas e Boaventura de Sousa Santos.

Esta característica aparentemente metodológica, própria a atividade científica, se faz presente no cotidiano de todos. Ora, a disparada da tecnologia é expressão deste movimento de exaltação da linguagem, que serviu para desenvolver os estudos sobre teoria da comunicação bem como para a manutenção das condições de reprodução destrutiva do capital, que exigem cada vez mais uma indústria tecnologicamente avançada, agregadora de trabalho morto.

Os flashmobs também podem ser colocados como expressões desse movimento, já que o conteúdo de suas ações é geralmente caracterizado pela exaltação do incomum, como uma atividade de estranhamento sem nehuma perspectiva de catarse (o estranho encarado como pitoresco), e por uma nostalgia fetichizada (a satisfação de desejos irrealizados no passado) marcada especialmente por certa infantilidade.

Qualquer perspectiva de adoção dos flashmobs para uma forma de mobilização da esquerda, tal como tinha imaginado num primeiro momento, está descartada. Para que ela pudesse ter alguma eficácia neste sentido, seria preciso a existência de um movimento cultural que valorizasse uma reflexão realmente crítica da realidade. Mais ainda, esse movimento precisaria ser constituído com a clara consciência de se opor a ideologia dominante, algo como um pensamento contra-hegemônico.

Para mim, fica cada vez mais forte a concepção gramsciana de partido como elemento estratégico de organização da esquerda. Esta concepção não se refere ao partido enquanto instituição burguesa, atrelada aos procedimentos eleitorais, mas enfoca mais a relação entre intelectuais e massas populares subalternas. Relação esta que deve servir para a formação de uma nova cultura, que se coloque de maneira antagônica a cultura hegemônica própria à reprodução do capital.

sábado, 6 de março de 2010

Mafalda

Nesses dias, numa das minhas tentativas frustradas de escrever minha dissertação, resolvi esfriar a cabeça lendo algumas tirinhas da Mafalda e resolvi postar um conjunto delas aqui no blog, só para desencanar um pouco. Para quem não conhece, vale a pena correr atrás dos quadrinhos feitos pelo Quino, que usa a figura infantil da Mafalda e de seus amigos para expor sutilmente a complexidade da vida em nossa sociedade ocidental. Veja aí!




Cacildis! Mussum e o pastiche


Por esses dias me deparei com uma grande surpresa: o lançamento em CD do segundo álbum solo do Mussum!

Isto mesmo, um dos ícones do programa Os trapalhões, conhecido por representar personagens pés-de-cana e por usar sem escrúpulos o sufixo “is” no final das palavras, tinha uma veia artística bem mais interessante do que a da comédia pastelão.

Que ele era músico não me era novidade. Sabia que ele era um dos fundadores do grupo Os originais do samba, mas até então nunca tinha me posto a ir atrás e ouvir o som do grupo – pelo menos com um grande interesse. Coisa, aliás, que ainda não fiz. Mas já arranjei cópias dos três álbuns solo do Mussum e me coloquei a escutá-los. Muito bacanas!

Mas não é exatamente sobre a qualidade musical do Mussum que eu quero falar aqui. O que tem que ser ressaltado são as discrepâncias existentes entre as suas duas atividades artísticas, entre sua faceta de cantor e a de humorista.

Como humorista, Mussum, assim como todo o restante do elenco d’Os trapalhões, servia de escada para a exaltação da figura do cara esperto, vivenciado sempre pelo Didi. A forma do programa era a de esquetes curtas ou médias em que predominava um conteúdo verdadeiramente simples, pouco trabalhado e com pouquíssimas mediações para se fazer entendido. O programa elaborava uma forma de humor que não era causado por piadas inteligentes, que exigiam do telespectador uma grande reflexão; pelo contrário, as piadas eram quase sempre baseadas em jogos ou fatos inusitados, que beiravam ao infantilismo.

Esse tipo de graça tem lugar na história, não é de forma alguma um fato isolado. Estava lá com Os três patetas, e está presente em quase todos os programas humorísticos da televisão. Ele é o pastiche, que segundo o nosso já conhecido Fredric Jameson, é a forma estética predominante do pós-modernismo.[1]

Pretendo falar sobre o pós-modernismo em outra postagem. Mas é importante saber que Jameson considera o pós-modernismo como um período histórico, mais do que simplesmente um fenômeno ideológico. Para Jameson, o pós-modernismo é produto de uma fase tardia de desenvolvimento do capitalismo, iniciada por volta da década de 1960, marcado por um avanço cada vez maior do capital financeiro e de uma tendência cada vez mais crescente de especialização da atividade humana, em todos os segmentos existentes.

A arte seria um destes segmentos e o pastiche a forma mais bem acabada de sua especialização. O pastiche se caracteriza, segundo ele, como um padrão estético que busca tornar a forma de uma obra artística seu próprio conteúdo. Em outras palavras, trata-se de tomar a arte pela arte, destacada de seu verdadeiro conteúdo, a saber, as determinações sociais de sua criação.

O pastiche, de maneira semelhante a paródia (padrão estético da modernidade por excelência), se baseia na reprodução de formas já existentes no campo da atividade artística. Mas enquanto que a parodia, em via de regra, tenta acrescentar um novo conteúdo às formas antigas, criando algo novo através de sua revitalização, o pastiche se resume a não acrescentar conteúdo novo, aliás, as discussões sobre forma e conteúdo deixam de fazer sentido em sua lógica, pois que a arte passa a ser uma técnica especializada, auto-suficiente, que tem na sua maneira de se mostrar o único conteúdo que lhe basta.

A graça simples, imediata, incitada pelas cenas do tipo pastelão (tortas na cara, esbofeteamentos gratuitos, uso de palavras esquisitas, e outras sutilezas infantis) é um bom exemplo de pastiche. Outro exemplo bem sacado de como se caracteriza essa expressão estética dominante no pensamento pós-moderno é a música do Zeca Baleiro Pastiche.[2] Essa música valoriza justamente a forma, pois o que se tem é toda uma construção poética pautada com a intenção de valorizar as rimas, nem que para isso se preencha os versos com orações sem ligação nenhuma entre elas, a não ser a métrica.

A faceta humorista do Mussum é também marcada pelo pastiche, sem dúvida alguma. E o que impressiona é que o seu lado de cantador nada tem disso. Ou se tem, é algo que fica completamente à parte.

Carregado do mesmo bom-humor que marcou sua carreira n’Os trapalhões, Mussum cantava sambas que tratavam do cotidiano dos subúrbios do Rio feito um Bezerra da Silva. Mantendo a forma comum ao samba, sua produção desse período era muito mais carregada de conteúdo do que os “cacildis” que soltava ou pela sua incessante busca por mé. Se não buscava radicalidade, pelo menos tratava com ironia (convenhamos, uma forma de discurso extremamente inteligente) algumas relações do cotidiano, como na canção O torcedor, escrita por Dicró e gravada no seu último álbum (Mussum, 1986) onde cantava a agonia do torcedor de futebol dentro e fora de campo: dentro, com o juiz da partida, que só fazia roubar; fora, com o ladrão, que também teimava em só lhe roubar...

É uma pena que a figura que tenha ficado na mente da minha geração e da atual seja a do Mussum pasticheiro, e não a do sambista. Sinal de que andamos a olhar para o passado garimpando bizarrices (como o cartaz do "Yes we créu") ou invés de procurar nele um momento do devir que vivemos agora, algo que poderia nos trazer uma melhor compreensão do presente. Terrível!



[1] JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio [traduçäo Maria Elisa Cevasco] – Säo Paulo : Ática ,1996.

[2] Quem quiser escutar a música do Zeca Baleiro é só acessar sua página e se dirigir à juke box no topo da página. O endereço é http://www2.uol.com.br/zecabaleiro/.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Chico Buarque, a arte e a ideologia

Até que enfim! Depois de um longo período de hibernação em pleno verão, retorno às minhas mal-iniciadas atividades blogueiras! E com uma metapostagem, para terror dos pós-modernistas de plantão.

Este período de férias até que foi razoável. Comecei a desenvolver alguns hábitos que a muito tempo estava pretendendo mas que a falta de disciplina tratava logo de jogar ao chão. E um deles foi o de começar a dar um carinho maior para os fenômenos artísticos, evitando assim cair naquela postura que todo mundo tanto critica nos marxistas, a de que nós pouco nos lixamos para a análise dos objetos de arte.

É certo que essa crítica não vem de graça. Realmente, muitos marxistas dão pouca bola para os estudos sobre arte, priorizando unilateralmente os aspectos econômicos e alimentando a idéia do “economicismo” marxista, algo que foge completamente do pensamento original dessa corrente. É para escapar dessa pecha que fui atrás de realizar um pequeno projeto que tinha na cabeça: estudar o cancioneiro de Chico Buarque.

Desde o início da graduação tinha na cabeça essa vontade. Para realizar essa empreitada, tive certa dose de incentivo: precisava de um artigo como avaliação de uma das minhas disciplinas do mestrado...então, nada melhor que juntar as duas coisas. Mais ainda. Nessa mesma disciplina entrei em contato com leituras que me instigaram a realizar uma análise materialista histórico-dialética das obras artísticas: a saber, os textos de Georg Lukács e de Fredric Jameson.

Já escreveu Lukács que o ser humano é um ser que dá respostas. Com esta afirmação ele queria apontar o fato de que o gênero humano é capaz de refletir sobre o ambiente que o cerca e agir sobre ele de acordo com essa reflexão. É importante lembrar que quando ele se refere a ambiente não esta apenas mencionando o espaço natural ocupado pelo ser humano, mas também o espaço social forjado pelas relações sociais. Este agir sobre o ambiente, então, poderia ser uma ação voltada diretamente sobre a natureza, bem como uma ação voltada para a intervenção em conflitos propriamente humanos.[1]

O caráter reflexivo do ser humano é decisivo para determinar a maneira como ele interfere na realidade para satisfazer suas necessidades. É o ato de pensar o próprio pensamento, ou seja, a tentativa de reconhecer o conteúdo concreto de suas ideações, que lhe permite realizar um salto qualitativo na maneira de produzir e reproduzir suas condições de existência. E este ato reprodutivo não significa simplesmente recriar as mesmas coisas, mas sim criar constantemente o novo. Afinal, satisfeitas as antigas necessidades surgem outras novas, e com elas novos problemas e também possíveis novas soluções se colocam no horizonte.

É nessa progressiva criação do novo – que cobre a história da humanidade – que se desenvolvem formas peculiares de entendimento do mundo, como a ciência e as artes. Cada uma com suas características, ambas, na verdade, se prestam a serem formas de entendimento da realidade, visões de mundo que podem cumprir uma função social específica: organizar uma parcela da sociedade, senão uma sociedade inteira, a pensar de maneira determinada sobre certos problemas, com o intuito de elaborar e efetivar determinadas soluções.

Assim, é possível dizer que tanto as ciências quanto as artes podem ser, em determinadas circunstâncias, expressões sociais ideológicas. Lukács define ideologia como um complexo categorial do ser social que engloba as ações humanas voltadas para a resolução de conflitos exclusivamente entre seres humanos.[2] É também, neste sentido, que qualquer tentativa de entendimento das relações sociais pode encontrar na análise do movimento de elaboração das obras artísticas uma área de estudos privilegiada.

No caso específico das artes, para além das sensações afetivas que os mais diversos objetos artísticos são capazes de promover, o processo de elaboração destes mesmos objetos também envolve uma série de determinações que partem desde o posicionamento sobre a adoção e a restrição às variadas formas de estilo até questões realmente políticas, de concordância ou não com certas visões sociais de mundo.

Neste sentido, as palavras de Jameson[3] sobre os objetos de cultura ganham importância. Para ele, os objetos de cultura não estão desvinculados da atividade prática. Pelo contrário, toda obra de arte está diretamente vinculada ao tempo histórico de sua criação, e cada tempo histórico é resultado de uma determinada forma de organização social, a saber, de uma determinada forma de divisão do trabalho. Esta divisão do trabalho é quem dá o tom da produção artística, pois é ela que baseia o cotidiano do ser humano nas várias formas que ela pode assumir de acordo com a condição de classe que se vive.

Pautado nesse princípio, me dispus numa tentativa de análise da obra do Chico de maneira a apresentar indícios de seu caráter ideológico, no sentido lukacsiano do termo. Em outras palavras, tratei de encarar o seu cancioneiro enquanto uma resposta qualquer aos conflitos existentes em um determinado período histórico, tendo sempre em mente os conflitos de classe existentes na época que, com ou sem consciência dele, marcaram e definiram sua obra.

Como a obra de Chico Buarque é extensa, começando na década de 1960 e vindo até os dias de hoje, tanto na música e dramaturgia quanto na literatura, defini como objeto apenas algumas de suas composições da década de 1960 e 1970, período cujo caráter ideológico de sua produção parece ser constituído de maneira consciente, fazendo dela um objeto ainda mais complexo e muito mais instigante.

O reconhecimento do caráter ideológico na produção artística por Chico Buarque se deve, em grande medida, pelo ambiente no qual ele viveu durante toda a sua infância e adolescência. Nascido no Rio de Janeiro no ano de 1944, filho de Sérgio Buarque de Hollanda, historiador reconhecido no meio intelectual, Chico teve sua formação marcada na infância por grandes discussões políticas nacionais: passou pela ideologia trabalhista do getulismo e também pela ideologia nacional desenvolvimentista do governo JK. É neste período, década de 1950, na adolescência de Chico, que surgem as chamadas vanguardas artísticas, como a poesia concreta, o Cinema Novo e a Bossa Nova.

Em 1963 entra na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP. Sua entrada na vida acadêmica ocorre no mesmo período da emergência dos movimentos populares e também de um grande aumento no interesse da população como um todo na participação política, caracterizado especialmente por uma postura radical na transformação da sociedade, uma postura de esquerda; assim era no movimento estudantil (como com os CPCs – Centros Populares de Cultura – da UNE), no operariado (com a criação da CGT – Conferencia Geral dos Trabalhadores) e os agricultores (formação das Ligas Camponesas).

É nesse ambiente de cultura efervescente que Chico começa a compor. Suas canções iniciais refletem as preocupações de sua época, mais precisamente aquelas orientadas à esquerda, bem como o posicionamento que o próprio compositor tratava de seguir.[4]

Em Marcha para um dia de sol, composição de Chico de 1964, o cantador clama, logo de início, que tem o desejo de ver um futuro sem sofrimento, onde toda a gente sorri com o dia. No mesmo ano, na canção Tem mais samba, Chico escreve e canta também sobre um futuro sem sofrimento, marcado pela busca da felicidade concretizada no samba. O samba como elemento de redenção da população nacional ante aos seus problemas é retratado também, mas de forma menos singela em Meu refrão, de 1965. Nela, o cantador convoca quem o escuta para se alinhar ao seu posicionamento na sociedade, de alguém que vive num barraco, mas que nega o valor das instituições oficiais e que despreza também outras convenções.

Embora estas canções reflitam a disposição de Chico em cantar os problemas sociais numa perspectiva crítica, deve-se observar que ele fica muito aquém da radicalidade. Uma teoria de transformação da sociedade, considerando o pensamento marxista como sua expressão ideológica mais bem acabada, tem por fundamento a concepção de que a sociedade é formada de acordo com a maneira como produz e reproduz sua existência – o erroneamente famigerado aspecto econômico. Seria a partir da organização da produção econômica que a sociedade sustenta sua estrutura. Esta organização social da produção seria visível através dos espaços ocupados pelos indivíduos na esfera produtiva, na maneira como eles estariam organizados em classes sociais. E é a categoria de classe social que está completamente esquecida nestas canções de Chico.

Embora haja um reconhecimento da situação de penúria que existe na sociedade, o cantador acaba se colocando não na figura de um despossuído, que ele reconhece ser, mas na de um cantador, e tenta exercer um poder de convencimento ideológico não por sua condição de existência marcada pela miséria, mas sim pela sua condição de músico. Por mais que a música sirva de instrumento ideológico, e que se reconheça isto, o posicionamento do eu lírico nessas canções acaba por excluir o elemento que faz da crítica à sociedade algo radical: a contraposição de interesses econômicos. Sem isso, a música de Chico – assim como qualquer outra que se proponha a empreitadas ideológicas desse tipo – tende a criar vínculos de aproximação com um público que valoriza mais a faceta formal – lírica, no caso – da canção do que o seu conteúdo, subvertendo a intencionalidade ideológica pretendida por ele.

Embora as primeiras canções de Chico Buarque apresentem esse alto teor de ambigüidade, é inegável que elas possuem o claro interesse de estimular o pensamento com relação aos problemas sociais. Porém, com o advento do golpe militar de 1964, o próprio Chico admite uma mudança no seu comportamento. Sua percepção da mudança no sistema político provoca nele certo desinteresse com relação aos problemas da época, refletindo diretamente em suas canções.[5]

A partir dessa data, as composições de Chico apresentam uma atitude de distanciamento do cantador com relação ao movimento da história. O melhor exemplo disso é a música A banda (1966). Nela todos os personagens, marcadas pela pobreza pessoal de suas vidas, se alegram ao verem a banda – metáfora que representa a felicidade concretizada através da comunhão entre as pessoas. Mas o ato de alegria consiste somente na observação, pois que ninguém se atreve a seguir a banda e logo que ela passa todos se resignam a sua frustrante condição existencial.

É possível notar também que essa atitude de distanciamento provoca nas composições de Chico a realização de uma concepção anistórica do tempo. O tempo existente na canção é efêmero, não pretende possuir uma conexão com o tempo histórico. Toda a perspectiva de mudança social que as canções desse período contêm começa e termina marcada pelo tempo de realização das metáforas como o Carnaval, a banda e o samba, procedimento esse que ressalta o caráter contemplativo da atitude do cantador com qualquer possibilidade de mudança. Como conseqüência, tem-se uma atitude nostálgica, ou seja, de resistência aos problemas do presente – como o individualismo e da miséria – através da exaltação de valores afetivos do passado, tempo em que supostamente as amarguras cantadas pelo cantador não existiam.

Se se voltar para a idéia inicialmente exposta no ensaio, pode-se dizer que o cancioneiro dos primeiros anos de Chico Buarque representa, no aspecto ideológico, uma resposta bastante adequada aos problemas da época. Adequada não porque propõe uma alternativa radical aos problemas que se apresentam, mas porque ela é capaz de arrefecer os ânimos de mudança em favor da atual situação sem que, no entanto, ele seja visto como um defensor desta postura. Pelo contrário, dificilmente pode-se questionar a intencionalidade do autor neste sentido, entendendo que ele realmente estivesse disposto a elaborar uma resposta radical aos problemas levantados no Brasil na década de 1960. Mas existe uma grande diferença entre pensar sobre uma coisa e agir sobre ela, embora ambas as ações sejam indissociáveis. No caso de Chico, a forma como suas canções são elaboradas colabora para a fixação de um conteúdo que não corresponde com a realidade mesma, mas com a realidade pensada através de uma visão de mundo que ignora as determinações materiais decisivas, especialmente a condição de classe que baseia a vida das pessoas cantadas por ele – incluindo ele próprio.

Mas a história é um devir, um constante movimento de transformação, marcado por um incessante processo de resolução e criação de contradições. Chico Buarque passa por esse processo contraditório, quando novos movimentos musicais começam a questionar o seu trabalho, juntamente com um endurecimento do regime militar com relação aos movimentos e pensadores de esquerda. Essa situação abala seu trabalho, exigindo dele uma transformação total no sentido de sua poesia. Antes considerado como uma verdadeira unanimidade, Chico vê-se então criticado por todos os lados. Para superar esse momento, ele próprio teria que reconhecer qual a ideologia que ele próprio pretendia defender e, mais importante, qual a melhor maneira de expressar o sentido escolhido. Este é o período das chamadas canções de protesto, o período de uma transformação na articulação entre forma e conteúdo no cancioneiro de Chico Buarque.

O aumento da repressão do regime militar fez com que Chico ousasse em sua produção artística. Em 1967 escreve a peça Roda-Viva, cujo teor – a desmistificação do ídolo popular – horroriza seu público ao quebrar sua imagem virginal de bom moço. Isto lhe rende também o início do cerco do regime sobre sua produção artística, embora a censura ainda não tivesse sido decretada (o AI-5 seria entraria em vigor apenas no ano seguinte).

Em compensação, principalmente por sua participação nos festivais, Chico começa a entrar em conflito com as idéias e com o público de outras correntes musicais do período. A manutenção do lirismo em suas canções, aliada ao levantamento de questões sociais, rendeu a Chico uma série de críticas vindas de todos os lados. Críticas essas que se constituem, na totalidade, como um conflito ideológico derivado da tensão entre forma e conteúdo existente em suas canções.

A tensão existente entre forma e conteúdo, e também entre suas canções e o público em geral foi sentida por Chico, considerando que o álbum do ano seguinte, 1970, registre canções que apresentem uma tentativa de reflexão sobre o momento turbulento vivido por ele. Em Essa moça ta diferente (1969) Chico canta a moça que ignora o poeta que cultiva rosas e rimas pra desinventar o som, clara referência ao público que passou a criticar o lirismo característico de suas canções e a se entusiasmar com o som pra lá de pra frente e supermoderno do Tropicalismo e da Jovem Guarda. Já em Agora falando sério (1969), o que se tem é uma crise de Chico com sua própria criação. O lirismo e o teor de crítica social de suas canções são questionados pelo próprio compositor, como se fossem equívocos em sua vida. Até mesmo sua “unanimidade” passa a ser contestada, numa tentativa de demonstrar o quão distorcido estava o conteúdo de suas canções, o que provoca no cantador a vontade de não querer cantar.

Após esse período de reflexão, Chico apresenta um álbum com características completamente diferentes do que já havia feito antes. Com Construção, datado de 1971, Chico inicia a chamada fase das “canções de protesto”, composições que abandonam o lirismo nostálgico da década anterior e assumem a perspectiva de mudança do presente. A suspensão da realidade dá lugar à crítica tenaz e à perspectiva de um futuro redentor.

Na canção Construção (1971), Chico tem como personagem de sua poesia o operário. Diferentemente das composições anteriores, a personagem da canção não comporta mais uma atitude passiva com o mundo que faz dele infeliz. Mesmo que esse rompante de ação seja completamente destrutivo.

O operário, completamente desumanizado por sua atividade, segue para a construção de maneira mecânica, realizando um serviço concreto, real, que é realizado com uma postura sólida, intransigente, mas não menos sofrida. O samba triste que segue a letra enfatiza o caráter perturbado dos atos do operário e ao mesmo tempo sugere que uma tragédia está em vias de acontecer.

Ao trabalho concreto de erguer paredes, ele alia o trabalho subjetivo do desenho mágico, subvertendo o valor da situação. O trabalho alienante da construção se torna o movimento que lhe permite criar um não-lugar imaginário, um espaço de manifestação de seus sentimentos contidos pela dura realidade que vive. É no desenho mágico que ele descansa e faz do seu lazer os últimos momentos de sua vida, divertindo-se como poucas vezes fez. Realiza todos os seus desejos de maneira atrapalhada, mas supostamente livre. Suposição esta que se desfaz no momento de sua queda, onde acaba sua vida, no meio do tráfego, percebido não como uma tragédia, mas como um entrave, desumanamente.

Na segunda estrofe, a canção retoma os atos de maneira parecida, mas trocando as palavras de lugar. Com isso, cria-se uma sensação de repetição inovadora, que apresenta um movimento semelhante, mas distinto do original. O operário, nessa estrofe, não apresenta a mesma emoção expressa anteriormente. Seus movimentos, como indicam os versos, são calculados, como se ele fosse dono, pelo menos por alguns instantes, de seu próprio destino. Com esse mesmo espírito ele aproveita seus últimos momentos como algo verdadeiramente sublime. No entanto, essa altivez não muda seu destino, acabando estatelado como um pacote no chão, atrapalhando novamente o caminho dos transeuntes.

Na última estrofe, o trabalhador se apresenta como um ser completamente estranhado de sua condição humana. O jogo combinatório de palavras reforça essa idéia, atribuindo aos versos um sentido cada vez mais ilógico. A construção, antes concreta, se torna flácida, tal como o operário que nela trabalha, demonstrando a fragilidade das estruturas reais (sociais) que definem seu lugar o mundo (sua condição de classe). Sem afetividade, sem grande pensar e animalizado, não resta muita coisa ao trabalhador a não ser ter que acabar com usa vida, único momento que ele se sente realizado.

Construção se caracteriza por ser uma crítica sagaz às condições de vida não só do regime militar, mas também as condições próprias ao capitalismo. Mas mesmo assim não é possível perceber um sentido utópico em seus versos. A crítica aqui traz à tona as contradições inerentes a situação, mas não propõe nenhum sentido possível para sua superação, demonstrando-se uma canção ideologicamente pessimista com relação a situação da época e pouco preocupada em contrapor quaisquer alternativas a isso. O utopismo surge em outras canções, como O que será (À flor da terra) e Linha de montagem, de 1976 e 1980, respectivamente.

Nesta fase “crítico-utópica”, para usarmos a classificação elaborada por Meneses, Chico procura manter a idéia de que o trabalho artístico possui uma característica ideológica. Mas ao contrário da fase anterior, a resposta dada através de suas canções permite a ele um posicionamento específico dentro dos conflitos existentes na sociedade brasileira da época. Aqui não existe mais a figura do bom-moço cujas canções, embora carregadas de uma crítica social, não eram capazes de provocar um impacto tão grande a ponto de desvelar as contradições que envolviam a realidade do compositor e do público; existe sim a figura de alguém que soube articular forma e conteúdo para provocar um efeito negativo em seu espectador com relação à realidade. Negativo no duplo sentido de exortação dos problemas e da proposição (pensada mais como futuro a se realizar do que estratégia a se cumprir) de suas soluções. Algo que não era nada adequado numa época de repressão social escancarada.

Diante do que foi apresentado, é possível decorrer sobre uma série de desdobramentos de ordem geral. Pode-se questionar como a articulação entre forma e conteúdo pode garantir um efeito catártico na apreciação do público tendo em vista o desvelamento dos problemas sociais que cercam a todos, mas que na maioria do tempo são ignorados, como pode ser visto na comparação entre as duas fases identificadas na carreira de Chico. Também é possível questionar, ainda mantendo como base a comparação entre as duas fases buarquianas, se os valores defendidos nas canções são realmente dignos disto, ou seja, se as aspirações cantadas serão cumpridas tal como se imagina caso venham a ser postas em prática. É certo que isso envolve diretamente a radicalidade dos ideais trabalhados, e que pouco se pode culpar as obras artísticas por isso, mas, na medida em que estas servem de instrumento ideológico, o sentido atribuído à obra de acordo com o valor do conteúdo envolvido não pode ser desvinculado das questões estéticas. Também não se pode pensar que os objetos de arte podem ou não ser “inocentes”; isto seria uma atribuição que só serve para ressaltar como encaramos de maneira reificada a produção cultural. Inocentes ou não são as pessoas, seja como criadores ou como admiradoras de arte.

Mas é bom lembrar que qualquer forma de entendimento sobre a realidade pode apresentar equívocos, por mais que ela pretenda o contrário. E isso não difere da arte enquanto ideologia. Assim, neste sentido, Jameson[6] afirma que as obras de arte possuem um duplo aspecto, ideológico e utópico. O primeiro, cuja significação se distingue daquela usada anteriormente por Lukács, representa o que há de discrepante entre a intencionalidade do autor e a resolução prática que ele pretendia fazer surgir no apreciador de sua obra. Já o segundo significa justamente a união desses dois aspectos, mesmo que sua efetivação se apresente enquanto tendência, e não como algo absoluto, como se estivesse em vias de ser.

Enfim, as obras artísticas possuem suas peculiaridades estilísticas, mas como qualquer manifestação social (e mais ainda como manifestação de caráter ideológico), ela não deixa de estar fundamentada e muito menos deixa de intervir nas questões vitais da humanidade, na maneira como nós produzimos e reproduzimos nossas vidas. Mas esse papo é o papo do trabalho como fundamento da condição existencial propriamente social...isso é a deixa para outra postagem...


[1] LUKÁCS, Georg. As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem [tradução de Carlos Nelson Coutinho]. Temas de Ciências Humanas, n. 4. – São Paulo : Ciências Humanas, 1978, p. 1-18.

[2] Sobre o entendimento de Lukács acerca da categoria ideologia, entre várias boas leituras, conferir LESSA, Sergio­. Para compreender a Ontologia de Lukács. – 3ª ed. – Ijuí : Unijuí, 2005.

[3] JAMESON, Fredric. Reificação e utopia na cultura de massa [tradução de João Roberto Martins Filho]. Crítica Marxista, v. 1, n. 1 – São Paulo : Brasiliense, 1994, p. 1 a 25.

[4] Como minhas postagens estão se tornando gigantescas (pelo menos no padrão da maioria dos blogs), eu decidi não transcrever as letras das canções do Chico analisadas aqui. Quem quiser conferir pode ir para www.chicobuarque.com.br. Tem tudo lá, bem organizado, por sinal.

[5] MENESES, Adélia Bezerra de. Desenho mágico: poesia e política em Chico Buarque. – São Paulo : Hucitec, 1982.

[6] JAMESON, Fredric. Marxismo e forma. Teorias dialéticas da Literatura no século XX [tradução de Iumna Maria Simon et al]. – São Paulo : Hucitec, 1985.