sábado, 28 de novembro de 2009

O porquê deste blog

A primeira coisa que pensei em escrever por aqui quando surgiu a idéia de criar O concreto pensado foi sobre os motivos da feitura de um blog. Coisas próprias de uma pessoa que possui sérios problemas de atitude reflexiva e autocrítica. Mas mal sentei à frente do monitor para começar a escrever e já percebi que isso era uma tremenda perda de tempo.

Mais uma vez, minha postura reflexiva me fez ver o quão inútil seria justificar a criação de um blog. Os motivos são os mesmos de todas as pessoas que partem para essa empreitada: divulgar suas idéias pessoais, buscar opiniões das mais diversas pessoas, organizar e materializar idéias que muitas vezes ficam vagando em nossas mentes e não encontram vazão material, por passatempo e por aí afora.

Veio a cabeça que mais importante do que escrever sobre o “fazer blogueiro” era escrever sobre as características deste blog. Aquilo que faz dele um projeto particular; demonstrar que, embora seja um blog como qualquer um, se difere de todos os outros pelo conjunto de determinações que o constituem. É por isso que resolvi expor as pretensões que tendem a definir a particularidade de O concreto pensado. Sim, tendem a defini-la porque, muito embora tenho minhas intenções, não tenho tanta certeza de que elas se cumprirão. Afinal de contas, como bem escreveu o velho camarada Marx, aquilo que pensamos sobre a realidade não é exatamente a realidade que pensamos.

E é justamente essa diferença entre o que pensamos sobre a realidade e a realidade mesma que me motiva a escrever. O conceito de concreto pensado, que dá nome a este blog, foi elaborado por Marx[1] com o intuito de explicar como se dá o processo de conhecimento da realidade e de suas conseqüências para a prática humana, nas suas mais diversas formas. Na sua tentativa de demonstrar os limites da teoria econômica clássica, nosso camarada alemão expõe o quanto uma análise baseada em conceitos adotados aprioristicamente representa um empreendimento idealista, com chances bastante reduzidas de apreender a realidade concreta.

Isso porque quando adotamos conceitos pré-definidos como instrumentos de observação e compreensão do real, somos obrigados a considerar que esses conceitos correspondem diretamente à parcela do real que pretendem explicar. Neste movimento, surgem as conhecidas “receitas de bolo” sociológicas, os métodos de investigação que modelam seu objeto de acordo com seus pressupostos.

A conseqüência deste procedimento é prática. Quanto mais nos apoiamos em conceitos estranhos à elaboração de nossas observações, mais nos distanciamos da realidade que queríamos observar inicialmente. Cada vez mais passamos a confundir aquilo que pensamos ser o real com o real. A partir dessa não correspondência, e considerando ainda que nossas ações no cotidiano estão vinculadas diretamente àquilo que conseguimos apreender e compreender de seu movimento, fica fácil presumir que práticas forjadas desse modo possuem menores chances de se efetivar na realidade da maneira como foram planejadas.

Contra essa postura, Marx afirma que a maneira correta de análise do real, aquele que toma como parâmetro de verdade não o método pressuposto, mas a realidade mesma, seria aquele que perpassaria a intuição empírica de um objeto e conseguiria resgatar, através de um processo de análise, as determinações que o compõem. Estas determinações, que se apresentam em forma de abstrações, por sua vez, ajudariam a reproduzir, pelo pensamento, o movimento do concreto. Este movimento não seria, obviamente, o movimento real em si, apenas uma reprodução ideal deste. Mas, deste modo, ele possibilitaria a apreensão verdadeira da gênese do concreto. O concreto empírico – a realidade que podemos sentir e que se apresenta corriqueiramente a nós – torna-se nesse processo de apreensão de sua constituição concreto pensado. Em outras palavras, ele deixa de ser um objeto cujas determinações só podemos imaginar para se tornar um objeto de determinações conhecidas.

Assim, O concreto pensado foi feito com o intuito de ser a expressão de minhas particulares concepções da realidade; minhas tentativas de transformar o concreto empírico tal como apreendo em concreto pensado, fugindo de qualquer prática idealista. Mais do que isto: à medida que o concreto pensado é uma expressão prática da tentativa que fazemos para compreender a realidade com o intuito de transforma-la de algum modo, este blog pretende ser um instrumento de posicionamento prático para questões ligadas diretamente ao meu cotidiano.

Da conversa no boteco ao debate em sala de aula, das discussões teóricas mais pesadas ao descontraído papo futebolístico, de gostos artísticos diversos à mesmice rotineira. Serão postos aqui os acontecimentos que determinam minha existência e que precisam ser pensados de maneira mais profunda. Profundidade esta que pretende fazer com esses fatos não sejam expostos apenas como mera narração de causos, presos em sua superficialidade dada; que sejam expostos de maneira a terem suas determinações básicas compreendidas, demonstrando aquilo que os define particularmente, tanto em suas características universais – comuns a todos os outros fenômenos – quanto em suas características singulares.

Espero não ter caído num intelectualismo barato com essa exposição. Mas esta era uma exigência pessoal que não poderia deixar de lado. Mas, se mesmo assim, eu esteja enganado e tenha me saído com isso um tremendo de um pedante, faça o favor de me escrever, caro leitor. Afinal, a única coisa que nos faz sair do reino ideal “do acho ou não acho” é o contato com a própria realidade, que, para seres sociais como nós, nada mais é do que as relações que forjamos uns com os outros.

E isso basta, por enquanto.



[1] Esta discussão pode ser encontrada em MARX, Karl. O Método da Economia Política. In: Para a Crítica da Economia Política – Introdução [tradução de José Arthur Giannotti & Edgar Malagodi]. São Paulo : Abril Cultural, 1974, (Os Pensadores), p. 122-9